O paranaense Sylvio Back, diretor do longa Lost Zweig, que será exibido hoje, queria ser cineasta antes mesmo da palavra ser inventada. Nos anos 50, inveterado leitor das revistas Filmelândia e Cinelândia, uma espécie de making of fotográfico do que Hollywood produzia, ele via os diretores nas filmagens de paletó, gravata e chapéu, sentados em cadeiras com seus nomes, voando em gruas, e pensava: “Como é que alguém morando em Paranaguá pode um dia a ser diretor de cinema?”, lembra Back.
Hoje em dia ele diz filmar para não frustrar os devaneios daquele garoto sardento e atrevido. Sylvio não sabe ao certo quando o cinema começou na sua vida. Poderia ter sido nas matinês em Curitiba, quando ia com a avó cinéfila assistir Bambi, de Walt Disney; ou depois, ainda nos anos 40, vendo os cinejornais da guerra, Roma, Cidade Aberta, Alemanha, Ano Zero, Flash Gordon, os inúmeros faroestes e os seriados de Hollywood.
“Comprava os ingressos com a venda de gibis à porta do cinema. Com dois exemplares do mesmo número, recortava os balãozinhos e montava uma nova história. Armava um enorme rolo de filme de papel dentro de uma caixa com lâmpada de pilha. A trilha sonora era de Frank Petry Trio”, recorda.
Nesse contexto, a sala de projeção era a casa dele. E como já sabia que para viver de cinema no Brasil era preciso de apoio financeiro, cobrava o ingresso e mostrava a tal bobina para um público que chegava a dez pessoas, entre adultos e a turma da escola. Foi a época em que ele acumulava as funções de roteirista, cineasta, produtor e exibidor ao mesmo tempo.
Mesmo depois de tantos longas, Sylvio não acredita ter uma carreira consolidada. “No Brasil, cada filme é sempre o primeiro. E o próximo é e continuará sendo sempre uma incógnita. Estamos sempre recomeçando, tamanha a instabilidade para se formatar uma carreira”, afirma. Para ele o fato de inúmeros autores e projetos sucumbirem no caminho das incontáveis dificuldades financeiras de produção, de exibição que acompanham a realização de uma idéia, de um roteiro, fazem do Brasil um lugar onde cinema é sinônimo de desafio.
“Depois de décadas excluído, omitido, patrulhado, desqualificado, censurado pela academia e em retrospectivas no País e no exterior, apesar de uma filmografia de 36 títulos, cheguei à meridiana conclusão que os curadores da história oficial do cinema brasileiro estão cobertos de razão: Sylvio Back não sabe filmar”, brinca o diretor.
Sobre a participação dos veteranos do cinema brasileiro nesta 36ª edição do festival, Sylvio diz que eles são cineastas com desenhos estéticos e inquietudes morais e políticas bastante diferentes. “Mais uma vez Brasília surpreende a todos”.