A filmografia dos cineastas Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach e Júlio Bressane nasceu no auge dos conturbados dias de 1968. Os três fizeram história no cinema brasileiro a partir da Boca do Lixo, reduto paulista de cineastas militantes que propunham um cinema radical e esteticamente contestador.
Sganzerla foi o primeiro a ousar, com o desconcertante O Bandido da Luz Vermelha, em 68. No ano seguinte, Bressane polemizou com o irônico Matou a Família e Foi ao Cinema e Reichenbach filmou sem pudores o drama erótico Lilian M., de 1972. Era o início do Cinema Marginal, ou udigrudi cinematográfico.
O espírito contestador dos cineastas marginais – herança direta do Cinema Novo, de Glauber e Joaquim Pedro de Andrade – perdeu a força (ou o propósito) nesses 30 anos. Mas o caráter experimental das suas produções permaneceu – a julgar pelos recentes Dois Córregos, de Reichenbach, e os enebriantes São Jerônimo e Dias de Nietzsche em Turim, de Bressane.
Depois dessa fase cult, a Boca do Lixo enveredou pelas produções de baixo orçamento e pornochanchadas. Foi quando revelou, no fim dos anos 70, a atriz Claudete Joubert (mulher do saudoso cineasta-bombeiro, Afonso Brazza) e o cinema-trash de Zé do Caixão.
Os ecos da Boca do Lixo, no entanto, adentram o “átrio imaculado” do novo cinema brasileiro. A começar pelos longas-metragens Cama de Gato e o aclamado Amarelo Manga, exibidos na edição do ano passado do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Neste ano, a única produção que remeteria o público ao estilo do cinema underground seria o derradeiro filme de Brazza, Fuga Sem Destino. Mas a Secretaria de Cultura adiantou que não será possível exibi-lo, pois não fora acabado até então.