Para fazer cinema durante os turbulentos anos que decorreram a partir do Golpe Militar de 64, era preciso somente uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, como pregava o mártir do Cinema Novo, Glauber Rocha. Com essa lógica, nascia também o cinema independente, rotulado de trash, produzido no reduto paulistano da Boca do Lixo, cuja boa parte das produções serão lembradas na mostra Cinema Marginal e Suas Fronteiras, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
Para abrir o circuito cinematográfico, hoje à tarde, nada mais justo do que saudar o mais marginal dos cineastas da época, José Mojica Marins, mais conhecido pelo seu personagem Zé do Caixão. Durante os anos de 60 e 70, Mojica alcançou a marca de 30 produções realizadas com escasso orçamento. Da sua criativa safra de filmes, foi escolhido o mais clássico para inaugurar a temporada: À Meia-Noite Levarei Tua Alma, de 1964, será exibido às 15h, após o curta-metragem Olho Por Olho, de Andrea Tonacci.
Mojica, com seus 72 anos, é até hoje militante da causa do Cinema Marginal, chamado também de Cinema de Invenção, ou Cinema Primitivo. “Classificar aquilo que fazíamos de trash é uma crítica muito dura. O orçamento era baixo, fazíamos tudo na raça. Não fosse esse cinema marginal, o nosso cinema de hoje, de Quatrilho, Carandirú e Cidade de Deus não teria existido”, defende.
O cineasta chega a Brasília no dia 25 deste mês, quando participa de debate sobre À Meia-noite… e realiza workshop de interpretação para cinema, TV e teatro na Faculdade de Comunicação da UnB. Antes disso ele dá seu recado: “É preciso valorizar a produção dos jovens. Tem muita gente boa aí mesmo em Brasília que não consegue entrar na panela das produtoras, nem levantar verbas para filmar”.
Após longo jejum de quase 20 anos sem conseguir finalizar um filme, Mojica enfim vê esperança para terminar seus projetos inacabados, como Encarnação, que seria o fim da trilogia de À Meia-Noite Levarei Tua Alma e Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver. “Quero terminar pelo menos dois longas neste ano e pretendo conseguir uma audiência com o presidente Lula”, revela. Segundo Mojica, é preciso uma iniciativa do governo federal no sentido de montar comissão específica para analisar projetos dos jovens cineastas.
O Cinema Marginal teve outros grandes representantes, que serão necessariamente lembrados por suas memoráveis produções. O saudoso paulistano Rogério Sganzerla – falecido em janeiro deste ano após lançar seu último longa, O Signo do Caos, em Brasília – fora um dos redentores do cinema de baixo orçamento, com o revolucionário O Bandido da Luz Vermelha, que será exibido em sua versão inédita de curta-metragem.
Cinema Marginal e Suas Fronteiras contempla ainda os marcantes títulos de Julio Bressane (Matou a Família e Foi ao Cinema), Carlos Reichenbach (Lilian M.), Ozualdo Candeias (A Margem) e João Callegaro (O Pornógrafo). A mostra, que já rodou por São Paulo e Rio de Janeiro, fica em cartaz no cinema do CCBB durante duas semanas, sempre de terça a domingo, com sessões às 15h, 17h, 19h e 21h. Ingressos a R$ 4 (inteira).