Apecha de maldito da música brasileira carregada por Elomar ao longo de 30 anos – a partir de suas performances muitas vezes incompreendidas nos festivais populares dos anos 70 – não condiz com a nova experiência erudita do artista baiano exibida no espetáculo A Carta. A ópera idealizada e composta por Elomar recebeu em sua estréia na capital federal, na noite de quinta-feira, as reverentes salvas do público que, de pé, aplaudiu o elenco e o autor da montagem durante ininterruptos cinco minutos.
Elomar, que já recebera cinco minutos de vaias por suas rebeldias sonoras, se enquadrou no padrão tradicional da ópera e conseguiu, com o enredo e as magníficas interpretações de Carolina Faria e Paloma Godoy, emocionar as mais de 200 pessoas que admiraram, perplexas, o fechar das cortinas. A Carta dispensa a pompa, porém, persevera-se refinada e erudita. Não precisaria ser mais. O espetáculo aproxima-se como nunca do povo brasileiro por uma simples razão: vira as costas para a Europa, berço da ópera, e lança um olhar sobre a realidade da população humilde do sertão brasileiro e sua migração para os grandes centros urbanos, no caso, a Grande São Paulo.
A Carta descortina em quatro cenas e pouco menos de três horas, o infortúnio de Maria (papel da mezzo-soprano Carolina, a melhor performance em cena). A ópera de Elomar segue uma linha tragicômica. Tudo começa numa alegre festa de São João, na qual os sertanejos recebem uma visita inesperada da “prima rica”.
De casamento marcado, mas sem dinheiro para consolidar o matrimônio, Maria é convencida pela prima a passar uns tempos em São Paulo, onde trabalharia numa fábrica de tecidos. Lá, ela encanta o filho do patrão, que clama pelo amor da donzela sertaneja. Ela se recusa, mas, ao tomar uma taça de vinho com entorpecentes, cede aos encantos do poderoso “pleibói” e se vicia em drogas.
O ápice da tragédia de Maria é alcançado com a leitura de uma carta que escrevera para sua mãe. Quem a lê é a professora, interpretada pela virtuose acadêmica Paloma Godoy, cuja voz é regulada em amplitude incrível – do grave ao agudo.
O que faz de A Carta, uma ópera original e com traços populares é o contraste entre o canto lírico e a narrativa caracterizada pela adoção do sotaque nordestino das personagens. Elomar despiu-se da irreverência e replicância e deixou que seu coração se derramasse em franqueza na criação da obra, com romantismo e dramaticidade dignos de lágrimas.
Serviço
A Carta – Ópera de Elomar. Regência de Henrique Morelembaum. Direção de André Paes Leme. Hoje, às 20h, e amanhã, às 19h, no Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Sul, Trecho 2). Ingressos a R$ 15 (inteira).