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Raiva e poesia em meio à opressão

Arquivo Geral

02/12/2004 0h00

Provavelmente, as gerações mais novas conheçam Luiz Fernando Emediato por seu trabalho como jornalista e prosador do do jornal O Estado de São Paulo, onde criou um inovador caderno de cultura. Mas, o autor citado aqui é dono de uma meteórica carreira literária que marcou os anos 70. E é esse período curto e luminoso que é redescoberto em Trevas no Paraíso, compilação que acaba de ser lançada pela Geração Editorial.

No prefácio do livro, o escritor Luiz Ruffato (autor do excelente Eles Eram Muitos Cavalos), um dos mais novos talentos literários do País, fala da excelência dos textos de Emediato, que se sobrepõe ao período no qual ele foi escrito, os anos da ditadura militar pós-1964. E está certo: há ali uma entrega poética e um despreendimento da forma que empresta perenidade aos contos reunidos no livro.

contorcionismoEm meio aos anos de chumbo, os poetas, compositores e artistas em geral tinham que desenvolver uma técnica e contorcionismo verbal para escapar dos grilhões da censura. Entrava então o exercício de metáforas e alegorias que fizeram fama na época. Inventavam-se países, deuses e semideuses, personagens patéticos, comunidades utópicas, denunciando, para o bem entender, a falta de liberdade e o absurdo da ditadura.

Emediato também se utilizou daquele subterfúgios para espernear contra a opressão, como em O Pastor, sobre um pregador que vociferava contra os demônios e impuros – os opositores da ditadura – que eram chicoteados publicamente. É o mesmo caso dos contos No Circo, onde usa de refinamento para criar quase hai-kais sobre o medo e a dor.

ficçãoMas, o leitor não deve se enganar. Trevas no Paraíso, apesar do subtítulo, “histórias de amor e guerra nos anos de chumbo”, não é uma reunião de contos, crônicas e novelas exclusivamente sobre aquele tortuoso e torturante hiato medieval. A sombra que perseguia os artistas da época, não tirou deles – pelo menos no caso de Emediato – o exercício da pura ficção.

Não existe o gosto travoso dos “anos de chumbo” em muitos dos textos, e sim uma clara tentativa de um jovem autor (Emediato ganhou seu primeiro prêmio literário aos 19 anos) em soltar o diabo das letras que ardia em suas entranhas.

Há em alguns escritos do autor uma busca da liberação de uma energia típica da geração dos anos 70 de lutar contra cânones literários, de enfiar o dedo na cara dos homens de roupão da Academia de Letras, de experimentar uma linguagem mais popular e próxima do cotidiano que garantem a Emediato um vigor juvenil e corajoso.

E como aquela geração vivia com intensidade o desbunde sexual, o sexo é um dos elementos cotidianos que Emediato trabalhou com mais propriedade e desabusadamente em seu texto. Como em Cândida ou Estreita Estrada, onde, sob o véu da adolescência cria histórias que transpiram sensualidade e despudor.

Mas é, talvez, exatamente no ponto de equilíbrio, quando Emediato junta sua indignação diante de uma nação rendida à poética do cotidiano, feita a partir do diálogo da necessidade que uma pessoa tem da outra, que o livro chega a seus momentos mais sublimes.

Longe do autor querendo impor uma identidade ao texto, longe dos maneirismos típicos de sua geração, Emediato emociona e mostra-se definitivo em textos como Trevas No Paraíso, no qual uma criança acompanha, sem saber, o misterioso pai rumo à guerrilha do Araguaia. Aqui, a poesia e o não dito revelam um prosador arguto, impecável.

tocanteAssim também como no ótimo O Outro Lado do Paraíso, uma tocante história em que um pai leva a família e os filhos a sonharem indefinidamente com um mundo ideal. Daria um grande filme, como aliás não o conseguiu os diretores Giba Assis Brail e Carlos Gerbase, em Verdes Anos, baseado em um conto de Emediato, que também está no livro.

Emediato, que hoje é consultor político, não quis mais conversa com os textos literários. Escreveu apenas três livros (e ganhou 15 prêmios literários) e resolveu esquecer este assunto quando partiu para a carreira jornalística. Podia ter ido mais longe. Trevas no Paraíso, tantos anos depois, ainda deixa um gostinho de quero mais.

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    02/12/2004 0h00

    Provavelmente, as gerações mais novas conheçam Luiz Fernando Emediato por seu trabalho como jornalista e prosador do do jornal O Estado de São Paulo, onde criou um inovador caderno de cultura. Mas, o autor citado aqui é dono de uma meteórica carreira literária que marcou os anos 70. E é esse período curto e luminoso que é redescoberto em Trevas no Paraíso, compilação que acaba de ser lançada pela Geração Editorial.

    No prefácio do livro, o escritor Luiz Ruffato (autor do excelente Eles Eram Muitos Cavalos), um dos mais novos talentos literários do País, fala da excelência dos textos de Emediato, que se sobrepõe ao período no qual ele foi escrito, os anos da ditadura militar pós-1964. E está certo: há ali uma entrega poética e um despreendimento da forma que empresta perenidade aos contos reunidos no livro.

    contorcionismoEm meio aos anos de chumbo, os poetas, compositores e artistas em geral tinham que desenvolver uma técnica e contorcionismo verbal para escapar dos grilhões da censura. Entrava então o exercício de metáforas e alegorias que fizeram fama na época. Inventavam-se países, deuses e semideuses, personagens patéticos, comunidades utópicas, denunciando, para o bem entender, a falta de liberdade e o absurdo da ditadura.

    Emediato também se utilizou daquele subterfúgios para espernear contra a opressão, como em O Pastor, sobre um pregador que vociferava contra os demônios e impuros – os opositores da ditadura – que eram chicoteados publicamente. É o mesmo caso dos contos No Circo, onde usa de refinamento para criar quase hai-kais sobre o medo e a dor.

    ficçãoMas, o leitor não deve se enganar. Trevas no Paraíso, apesar do subtítulo, “histórias de amor e guerra nos anos de chumbo”, não é uma reunião de contos, crônicas e novelas exclusivamente sobre aquele tortuoso e torturante hiato medieval. A sombra que perseguia os artistas da época, não tirou deles – pelo menos no caso de Emediato – o exercício da pura ficção.

    Não existe o gosto travoso dos “anos de chumbo” em muitos dos textos, e sim uma clara tentativa de um jovem autor (Emediato ganhou seu primeiro prêmio literário aos 19 anos) em soltar o diabo das letras que ardia em suas entranhas.

    Há em alguns escritos do autor uma busca da liberação de uma energia típica da geração dos anos 70 de lutar contra cânones literários, de enfiar o dedo na cara dos homens de roupão da Academia de Letras, de experimentar uma linguagem mais popular e próxima do cotidiano que garantem a Emediato um vigor juvenil e corajoso.

    E como aquela geração vivia com intensidade o desbunde sexual, o sexo é um dos elementos cotidianos que Emediato trabalhou com mais propriedade e desabusadamente em seu texto. Como em Cândida ou Estreita Estrada, onde, sob o véu da adolescência cria histórias que transpiram sensualidade e despudor.

    Mas é, talvez, exatamente no ponto de equilíbrio, quando Emediato junta sua indignação diante de uma nação rendida à poética do cotidiano, feita a partir do diálogo da necessidade que uma pessoa tem da outra, que o livro chega a seus momentos mais sublimes.

    Longe do autor querendo impor uma identidade ao texto, longe dos maneirismos típicos de sua geração, Emediato emociona e mostra-se definitivo em textos como Trevas No Paraíso, no qual uma criança acompanha, sem saber, o misterioso pai rumo à guerrilha do Araguaia. Aqui, a poesia e o não dito revelam um prosador arguto, impecável.

    tocanteAssim também como no ótimo O Outro Lado do Paraíso, uma tocante história em que um pai leva a família e os filhos a sonharem indefinidamente com um mundo ideal. Daria um grande filme, como aliás não o conseguiu os diretores Giba Assis Brail e Carlos Gerbase, em Verdes Anos, baseado em um conto de Emediato, que também está no livro.

    Emediato, que hoje é consultor político, não quis mais conversa com os textos literários. Escreveu apenas três livros (e ganhou 15 prêmios literários) e resolveu esquecer este assunto quando partiu para a carreira jornalística. Podia ter ido mais longe. Trevas no Paraíso, tantos anos depois, ainda deixa um gostinho de quero mais.

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