Retomar os anos marcados a ferro e fogo pelas patas da ditadura militar é trazer à tona um Brasil indigesto. Embora o de hoje seja uma casa bastante desarrumada, sonhar não é mais proibido. Cabra-cega, com direção de Toni Venturi e roteiro de Di Moretti, traz à tona, de forma cristalina, essa sutil diferença entre o período ditatorial e o da chamada democracia.
“Depois de mais de 30 anos, estamos podendo falar com menos raiva e assombro do período da ditadura”, disse o diretor, na apresentação do filme. Mas a indignação ainda é fermento que não se pode dispensar, deixa clara a história.
Não é a primeira nem última abordagem sobre os desmandos num país tão apetitoso e maleável para a especulação dos poderosos propriamente ditos – isso, aliás, não mudou. Mas Cabra-cega foi feliz por situar, de forma sucinta e visceral, os contornos de Terra Prometida que o Brasil ainda tem.
Sempre foi assim que sonhar era subversivo. Quem se aventurava a fazê-lo enfrentava o que algumas etnias indígenas chamavam de Anhangá – um espírito que rouba nossa voz quando, no auge de um pesadelo, tentamos gritar.
“Escolhi o medo em lugar de meu filho”, diz uma das poucas personagens do filme, lembrando ter negado proteção ao filho que, ao lutar na Espanha contra o regime do general Franco, teve o mesmo destino de quem fez a hora e não esperou acontecer: foi torturado e morto.
Na pele do guerrilheiro Thiago, Leonardo Medeiros é show do início ao fim da fita. É por seu empenho e pelo da doce e precisa Rosa (Débora Duboc), afinal, que o espectador é levado (pois Cabra-cega é puro arrebatamento) a romper o escuro e “botar o bloco na rua”.