Entreatos, de João Moreira Salles, foi o filme que mais provocou a reação da platéia no Festival de Brasília. Diante de um público reconhecidamente mais politizado, o longa-metragem passava por uma espécie de prova de fogo, tendo em vista a queda de popularidade do presidente Lula, figura central do documentário, em pleno exercício político de desencanto.
O filme, contudo, passa no teste. E isso se deve ao carisma de um candidato articulado e embalado pelos números positivos das pesquisas de opinião e à sensibilidade de Moreira Salles, que conseguiu reunir momentos de grande expressividade da campanha.
Com carta branca para participar de cenas dos bastidores, o diretor optou por mostrar o Lula menos público, conversando com o barbeiro, remontando com paixão o surgimento do PT, rebatendo seu marqueteiro. Conseguiu dar um tom humano e vigoroso ao filme, dando a exata impressão do estressante cotidiano de uma campanha política.
O documentário consegue arrancar a simpatia de uma platéia desconfiada, sem grandes recursos técnicos, açodado pelo corre-corre do embate eleitoral e usando, com inteligência, o improviso. O resultado é um filme honesto, reflexivo e revelador. (Rubens Araújo)