Bons filmes são aqueles que não terminam quando a tela escurece: costumam “acompanhar” o espectador e merecem a exposição a visões diferentes de quem os assistiu. É o que propõe o Projeto Cinevisões, que tem nesta terça-feira no Centro Cultural Banco do Brasil sua quarta edição, marcando a tradição de, a cada primeira terça-feira do mês, exibir gratuitamente um título de destaque da cinematografia nacional trazendo um ou mais palestrantes para comentar o trabalho e os temas que perpassam a produção.
A atração desta noite é Abril Despedaçado, do diretor Walter Salles. Logo após a sessão, no mesmo espaço em que o filme será exibido, haverá um bate-papo com a cineasta Denise Moraes, com o tema As imagens do cotidiano no cinema brasileiro: a semelhança entre as casas do cinema e as casas onde vivemos.
Formada em Cinema e Audiovisual pela Universidade de Paris VIII e mestre em cinema brasileiro pela UnB, Denise Moraes desenvolveu a atividade de crítica cinematográfica trabalhando na revista Le Gazette du Cinéma. No Brasil, foi assistente de direção de diversos cineastas, além de produzir e dirigir Um Pingado e um Pão com Manteiga e Filme Triste.
Narrativa realista
A história de Abril Despedaçado se desenvolve na geografia desértica do sertão brasileiro, onde vivem Tonho (Rodrigo Santoro) e sua família. Em abril de 1910, o rapaz sofre com uma grande dúvida: ao mesmo tempo em que é impelido por seu pai (José Dumont) a vingar a morte de seu irmão mais velho, assassinado por uma família rival, sabe que, caso se vingue, será perseguido e terá pouco tempo de vida. Angustiado pela perspectiva da morte, Tonho passa a questionar a lógica da violência e da tradição.
Walter Salles conheceu a história de Abril Despedaçado durante o lançamento de Central do Brasil e ficou impactado com a força bruta e simbólica da narrativa escrita por Ismail Kadaré. Impressionou-se também com a qualidade mitológica do confronto ancestral – o embate trágico entre um herói obrigado a cometer um crime que não quer e o destino que o instiga à frente.
Na época, o diretor Walter Salles tinha outros projetos, todos bem maiores que Abril Despedaçado. Mas, sem conseguir esquecer o drama daquele jovem cuja vida se partia em dois, acabou adaptando o livro e abandonado os outros projetos aparentemente mais fáceis e acessíveis.
Para a realização do filme, foi necessário um longo processo de pesquisa, principalmente nas leis tradicionais que regeram as guerras entre famílias no Brasil, geralmente conduzidas por latifundiários, e que acabaram por definir as fronteiras de alguns territórios nordestinos, como é o caso do Sertão dos Inhamuns, no Ceará, palco da guerra entre as famílias Montes e Feitosa na primeira metade do século passado. Vencedor em 2001 e 2002 do Pequeno Leão de Ouro no Festival de Veneza, Abril Despedaçado foi premiado duas vezes em Cuba, no Festival de Cinema de Havana em 2002.
CineVisões – Nesta terça-feira, às 19h, no Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Sul, Trecho 2). Entrada gratuita.