É certo que esta 36ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é atípica. A principal categoria (longa-metragem) é disputada somente por veteranos considerados marginais do cinema brasileiro na década de 70. Nascia no reduto paulistano da Boca do Lixo a cinematografia subversiva de José Mojica Marins – o Zé do Caixão –, e também dos contestadores Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e Carlos Reichenbach.
Os ecos da Boca do Lixo reverberam nesse Festival de Brasília. Sganzerla está de volta com O Signo do Caos, Bressane emplaca seu novo Filme de Amor e Reichenbach apresenta seu projeto Garotas do ABC (Aurélia Shwarzenega). O cineasta Maurice Capovilla – apesar de ser um remanescente da geração do Cinema Novo de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade – também passou pela Boca, quando realizou O Profeta da Fome, protagonizado por Mojica. Agora, 28 anos depois, retoma sua carreira no cinema com Harmada.
A Boca do Lixo foi responsável por mais de 60% da produção nacional nos anos 70 e início da década de 80. Era o cinema feito a duras penas, sem recursos financeiros, na raça, num espaço onde conviviam saqueadores, prostitutas e artistas marginalizados.
O nascimento deste chamado cinema marginal foi em 1968, quando o País fora “contaminado” por uma safra de filmes polêmicos e desconcertantes. Bons exemplos são O Bandido da Luz Vermelha, de 68 – considera obra-prima do cinema udigrudi, realizadoi pelo jovem militante Rogério Sganzerla – e o chocante Matou a Família e Foi ao Cinema, de Bressane.