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Produções fracas marcam o Cine Ceará

Arquivo Geral

08/06/2005 0h00

A má qualidade na maioria dos filmes que competem no 15º Festival Cine Ceará é de espantar. A escassez de grandes idéias literalmente afugenta a platéia. Até agora, salvam-se apenas as exibições dos documentários A Pessoa é Para o Que Nasce, de Roberto Berliner; e Moacir, Arte Bruta, de Walter Carvalho. Mesmo assim, o primeiro filme peca pela delimitação por vezes frouxa do registro da vida das Ceguinhas de Campina Grande – três irmãs cegas de nascença que ganham a vida a pedir esmolas pelo som de seus ganzás e que estiveram recentemente em Brasília na programação do Projeto Encantadeiras, no CCBB.

Após a exibição de A Pessoa é Para o Que Nasce, entrou em cena a equivocada comédia de Vânia Perazzo e Ivan Hlebarov – a falsa alegoria em meio à aridez da terra paraibana não funcionou. O que era para ser divertido tornou-se um enfado para o espectador. Na noite de domingo a câmera de Walter Carvalho iluminou a vida de um pintor pobre com problemas auditivos que vive na Chapada dos Veadeiros.

Vaias Na seqüência, surgiu o discurso apocalíptico mal-acabado do veterano Sérgio Bianchi, em Quanto Vale ou é Por Quilo?. Dividiu público e crítica, entre vaias e aplausos. Bianchi, por sua cinematografia, é um dos grandes Judas Iscariotes de Hollywood. Ele entrega o herói e desmantela um possível final feliz – o que é absolutamente saudável. Contudo, Bianchi perde a mão e exagera no tempero ao misturar a condição abissal de seus personagens (vividos, entre outros, por Leona Cavalli, Caco Ciocler, Herson Capri e Silvio Guindane) com fatias da história do regime de escravidão brasileiro.

A direção perde o rumo – não que seja necessária uma resposta à sua retórica-base: quanto vale ou é por quilo?, mas porque falta coerência narrativa em seu próprio ponto de vista que, nem sempre, indica para sua intenção acusatória. Se é que existe esta intenção.

O festival chegou à noite de segunda-feira com Bens Confiscados, de um falho Carlos Reichenbach, que dilui a história da degradação de uma mulher, a partir de um impassível melodrama – em ilegível sátira ao gênero, que mais parece a adoção do próprio como espinha dorsal narrativa. Em suma: reedição das fórmulas já serviram ao cinema do “Carlão” em trabalhos anteriores, como Alma Corsária e Dois Córregos.

Mau gostoA seleção dos curtas-metragens contempla uma quase-unanimidade de mau gosto, especialmente por parte dos quatro concorrentes da noite de segunda-feira: com o thriller sem personalidade O Cão Sedento; a adaptação rasa do conto de Rubem Fonseca, Balaio; o juvenil, piegas e mal-interpretado Narciso Rap; e o maçante Intimidade. Na primeira noite, o curta A Velha e o Mar, do cearense Petrus Cariry despontou como favorito. A comédia Momento Trágico, da brasiliense Cibele Amaral, foi prejudicada por problemas no som; e o recorte Veja & Ouça – Maria Baderna do Brasil, confirma a escassez de criatividade desta safra ao tentar colocar o cinema de Rogério Sganzerla a seu favor – em mera cópia de linguagem e narrativa.

Outro fator que influenciou, nitidamente, espectadores a deixarem o Cine São Luiz de Fortaleza antes do término das exibições foi a desorganização do evento. A programação dizia que a mostra começava às 19h. Apenas no domingo se cumpriu o horário. Nos demais dias, público, júri e crítica amargaram uma espera de, pelo menos, 1h30 antes de se apagarem as luzes.

A falta de punho em domar o laço da mínima organização refletiu ainda na escalação dos filmes a serem exibidos. O momento dedicado à mostra competitiva em curta e longa-metragens começou com apresentação de vídeos (sim, o festival é por tradição de cinema e vídeo), à priori marcado para ganhar projeção em ocasião distinta. Aí sim, lá pelas 21h30, a mostra principal começava, assim como a platéia se dispersava.

O repórter viajou a convite da organização do evento

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    08/06/2005 0h00

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    Após a exibição de A Pessoa é Para o Que Nasce, entrou em cena a equivocada comédia de Vânia Perazzo e Ivan Hlebarov – a falsa alegoria em meio à aridez da terra paraibana não funcionou. O que era para ser divertido tornou-se um enfado para o espectador. Na noite de domingo a câmera de Walter Carvalho iluminou a vida de um pintor pobre com problemas auditivos que vive na Chapada dos Veadeiros.

    Vaias Na seqüência, surgiu o discurso apocalíptico mal-acabado do veterano Sérgio Bianchi, em Quanto Vale ou é Por Quilo?. Dividiu público e crítica, entre vaias e aplausos. Bianchi, por sua cinematografia, é um dos grandes Judas Iscariotes de Hollywood. Ele entrega o herói e desmantela um possível final feliz – o que é absolutamente saudável. Contudo, Bianchi perde a mão e exagera no tempero ao misturar a condição abissal de seus personagens (vividos, entre outros, por Leona Cavalli, Caco Ciocler, Herson Capri e Silvio Guindane) com fatias da história do regime de escravidão brasileiro.

    A direção perde o rumo – não que seja necessária uma resposta à sua retórica-base: quanto vale ou é por quilo?, mas porque falta coerência narrativa em seu próprio ponto de vista que, nem sempre, indica para sua intenção acusatória. Se é que existe esta intenção.

    O festival chegou à noite de segunda-feira com Bens Confiscados, de um falho Carlos Reichenbach, que dilui a história da degradação de uma mulher, a partir de um impassível melodrama – em ilegível sátira ao gênero, que mais parece a adoção do próprio como espinha dorsal narrativa. Em suma: reedição das fórmulas já serviram ao cinema do “Carlão” em trabalhos anteriores, como Alma Corsária e Dois Córregos.

    Mau gostoA seleção dos curtas-metragens contempla uma quase-unanimidade de mau gosto, especialmente por parte dos quatro concorrentes da noite de segunda-feira: com o thriller sem personalidade O Cão Sedento; a adaptação rasa do conto de Rubem Fonseca, Balaio; o juvenil, piegas e mal-interpretado Narciso Rap; e o maçante Intimidade. Na primeira noite, o curta A Velha e o Mar, do cearense Petrus Cariry despontou como favorito. A comédia Momento Trágico, da brasiliense Cibele Amaral, foi prejudicada por problemas no som; e o recorte Veja & Ouça – Maria Baderna do Brasil, confirma a escassez de criatividade desta safra ao tentar colocar o cinema de Rogério Sganzerla a seu favor – em mera cópia de linguagem e narrativa.

    Outro fator que influenciou, nitidamente, espectadores a deixarem o Cine São Luiz de Fortaleza antes do término das exibições foi a desorganização do evento. A programação dizia que a mostra começava às 19h. Apenas no domingo se cumpriu o horário. Nos demais dias, público, júri e crítica amargaram uma espera de, pelo menos, 1h30 antes de se apagarem as luzes.

    A falta de punho em domar o laço da mínima organização refletiu ainda na escalação dos filmes a serem exibidos. O momento dedicado à mostra competitiva em curta e longa-metragens começou com apresentação de vídeos (sim, o festival é por tradição de cinema e vídeo), à priori marcado para ganhar projeção em ocasião distinta. Aí sim, lá pelas 21h30, a mostra principal começava, assim como a platéia se dispersava.

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