Num tempo em que a música brasileira se deixa deslizar, tantas vezes, pelo terreno da criatividade diet – pouco se cria, muito se copia – e até da vulgaridade, um lapso de valorização do talento nacional sinaliza uma boa oportunidade para os violeiros: o Prêmio Syngenta de Música Instrumental de Viola 2004, lançado no início deste mês em São Paulo e com inscrições abertas até o dia 31.
A iniciativa é da Syngenta, bem-sucedida empresa de Campinas do setor de agrobusiness, cujo diretor de marketing, Antonio Carlos Costa, resume em poucas linhas a afinidade com a idéia: “Nossa empresa vive o dia-a-dia muito próximo ao homem do campo. Nada mais apropriado para se fazer conhecer o homem do campo do que redescobrir seu talento artístico”.
Aos vencedores do concurso, serão destinados prêmios de R$ 10 mil (primeiro lugar), R$ 8 mil (segundo), R$ 6 mil (terceiro), R$ 4 mil (quarto) e R$ 2 mil (quinta colocação). Conhecedor do potencial que o Brasil tem no setor, a Syngenta não deixará de mostrar, também, os outros próximos onze classificados, a quem caberão os prêmios Aclamação, Revelação e Participação. Ao final, os 16 finalistas terão suas obras incluídas em um CD gravado ao vivo, durante a final do concurso.
Serão seis eliminatórias. A primeira ocorre em São Paulo, em 27 de junho, sendo sucedida pela de Brasília, em 14 de agosto, e a de Piracicaba, no dia 21 daquele mês. Curitiba e Belo Horizonte ficam com o mês de setembro, respectivamente sediando as eliminatórias dos dias 25 e 26. A final terá como cenário, muito apropriado, aliás, a capital de Mato Grosso, Cuiabá, no dia 2 de outubro. Todas as fases desse festival serão abertas ao público.
Participar é relativamente simples: basta inscrever músicas instrumentais inéditas, compostas para viola. Quem quiser levar música que já existe pode fazê-lo, desde que anexe a devida autorização do autor. Todos os detalhes do regulamento podem ser encontrados no endereço eletrônico www.direcaocultura.com.br. Cada participante pode inscrever, no máximo, duas músicas, enviando-as em fita cassete ou CD, devidamente identificadas e com documentos que tenham firma reconhecida, para o Prêmio Syngenta – Rua Cônego Manoel Garcia, 815, CEP 13070-037, Campinas, SP.
Grande entusiasta desse prêmio, o violeiro Ivan Vilela, que assume a curadoria do evento, é quem presidirá o júri encarregado de selecionar os candidatos. Também são jurados o violonista Paulo Belinatti e o crítico musical Tárik de Souza, profissionais de reconhecida capacidade para avaliar novos talentos.
“A viola caipira é um dos mais típicos instrumentos musicais brasileiros, e é um instrumento idiomático”, lembra Ivan Vilella, que se mostra bastante entusiasmado com a possibilidade de garimpar violeiros na capital federal. “O movimento da música instrumental em Brasília tem se mostrado muito bom”, elogia, citando Roberto Corrêa e o trabalho que vem sendo feito no Clube do Choro.
A viola, que tem cinco cordas, é mais familiar ao Brasil do que se imagina: chegou ao País com os jesuítas, logo no início da colonização. “Foi tão famosa em Portugal na época do Descobrimento quanto é hoje”, sintetiza Ivan. “É o principal porta-voz do homem do campo no Brasil, mas enfrenta uma depreciação desde o êxodo rural verificado a partir dos anos 50”.
Isso não quer dizer que a viola esteja fadada à extinção, ele enfatiza, fundamentado numa experiência que acompanha a vida de muitos violeiros atuantes no País. A diferença é que boa parte deles não chegou às graças da mídia. “O principal objetivo do Prêmio é o de oferecer uma visibilidade maior aos inúmeros tocadores de viola que existem por aí”, conclui.
“Deu muito trabalho elaborar o regulamento deste concurso”, atenta Antoine Kolokathis, da Direção Cultura, firma que atua junto à Syngenta no Prêmio de Viola. Tenor e freqüentador dos festivais de verão da Escola de Música de Brasília, ele sabe do que fala na medida em que está se referindo às diferentes modalidades de compositores que podem se inscrever.
A largada já está dada. A depender dessa iniciativa, foi-se o tempo em que as violas brasileiras andavam escondidas e amarguradas.