Tony e May juntos. Dinho, um traidor. Difícil imaginar isso acontecer em América? Pois era o que estava previsto quando a trama começou, no dia 14 de março, ainda sob a direção de Jayme Monjardim. O fato é que, com as mudanças pelas quais passou a novela– ou alguém já se esqueceu do choro sem fim de Sol e de seu romance pouco convincente com Tião? –, muitos personagens tiveram suas personalidades totalmente alteradas em ritmo urgente.
Se a protagonista passou a sorrir mais e a usar roupas sensuais, Tony, que seria apaixonado por May e sofreria com suas crueldades, nunca foi vítima da “quase vilã”. Tony, até agora, está meio que “desgarrado”, sem um par definido na trama, embora já tenha tentado emplacar romande.
E May, que faz tudo para se vingar de Sol desde que esta roubou seu “namorado/marido”, seria uma mulher “má por natureza”. Mas até a autora se esqueceu disso. Em entrevista há cerca de 15 dias, Glória Perez disse que May não é “totalmente má” e que as pessoas perceberiam isso com o rapto de Rique, que foi ao ar na semana passada.
“Novela é isso, como a vida. Quase todos estão diferentes do início da trama. Acho que, se isso não acontece, enjoa”, defende o ator Eri Johnson, que também teve o rumo de seu “peão de vitrine” alterado.
Tais mudanças são analisadas sob outra ótica por Maria de Lourdes Motter, especialista em novelas da Universidade de São Paulo (USP): “O projeto inicial é sempre bem-estruturado. Claro que os personagens precisam dar guinadas, mas mudar suas histórias para outra direção confunde o telespectador”.
O que ninguém nega é que as transformações fizeram bem aos índices de audiência: América já é a segunda novela mais vista da história recente da TV. Para Mauro Alencar, especialista em telenovela, isso é reflexo das mudanças. “Uma coisa é idealizar uma sinopse, outra é o decorrer da trama”, resume. “A novela é algo que depende da resposta do público o tempo todo. América passou a agradar mais e isso é comprovado pela audiência. O romance entre Dinho (Murilo Rosa) e Neuta (Eliane Giardini), por exemplo, teve ótima aceitação dos telespectadores”.
mudançasO envolvimento dos dois conseguiu mudar o rumo da história do peão. Na idéia original, ele viveria um conflito entre ser leal ao amigo Tião ou aceitar patrocínios milionários como propina para boicotá-lo nos rodeios. “É difícil para o ator analisar as mudanças do seu personagem, mas é algo que acontece para agradar”, comenta Murilo.
E América pode ter um fim pouco tradicional na história das telenovelas, se depender da vontade do público. O casal Sol (Deborah Secco) e Ed (Caco Ciocler) garantiu, no mês passado, picos de 62 pontos no Ibope para a Globo, com média de 58. Um indício de que a mocinha poderá terminar sem o seu amado, como Miss Jane, que um dia abandonou seu peão no Brasil.
Vilã “A novela é um produto industrializado e tem de vender. Um personagem rejeitado faz a audiência cair e precisa ser reformulado”, defende Mauro Alencar, autor do livro A Hollywood Brasileira – Panorama da Telenovela no Brasil.
Dona Imaculata, vivida por Elizabeth Savala em A Padroeira, de 2001, é um exemplo claro. No início da trama, era a típica malvada. “Para uma novela das 18h e para uma personagem religiosa, suas características eram muito fortes”, avalia Alencar.
Imaculata se transformou, então, em uma vilã cômica e levou até tapa na cara. Outro exemplo é o médico Felipe Barreto (Antonio Fagundes), de O Dono do Mundo (1991). O personagem sórdido foi rejeitado pelo público e precisou se transformar em um homem arrependido.