O sertão, os pecados capitais e o humor. Essas características básicas do dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (autor de Auto da Compadecida) poderão ser encontradas na adaptação da peça Farsa da Boa Preguiça, de sua autoria, feita por Núbia Santana, atriz e diretora pernambucana radicada em Brasília. O espetáculo, que estréia na cidade, será apresentado de hoje a sábado, às 21h, na Sala Funarte Plínio Marcos.
Nascida no sertão pernambucano, Núbia sabe bem falar da vida, das dificuldades e da felicidade do sertanejo. Atriz há nove anos, a diretora nunca tinha feito uma adaptação profissional. “Como sou sertaneja, me identifico muito com o Suassuna; acho que ele representa bem o nosso povo”, diz. A idéia de adaptar o espetáculo surgiu no ano passado. “Eu me encontrei com o Ariano Suassuna e falei sobre o meu projeto. Perguntei sobre a construção de cada personagem e ele foi me contando e me dando dicas”, diz a atriz, recordando que Ariano Suassuna confidenciou que Farsa da Boa Preguiça é seu texto preferido. Com o projeto na cabeça e os conselhos experientes do dramaturgo, Núbia partiu para a prática. “Foram cinco meses de ensaio. Na verdade, foi uma escola para o elenco, que contava com atores experientes e com aqueles que pisavam em um palco pela primeira vez”, informa.
Composto por 17 pessoas, o elenco dá vida às personagens de dois repentistas, três circenses, três demônios, dois casais (um representa a pobreza o outro a riqueza) e cinco músicos, que compõem a banda. “Não fugimos da idéia central da peça, que conta a história de um casal que sofre a influência de demônios cujo objetivo é condená-los ao inferno”, explica Núbia. Por causa da duração da peça, algumas cenas longas tiveram de ser sintetizadas. “O espetáculo original tem três horas e meia de duração. A adaptação tem só duas”, diz Núbia, que interpreta a jornalista Clarabela. “Eu trabalhei muito em cima dessa personagem. Tentei não fazer uma mulher chata e fresca, mas sim carismática e engraçada”, antecipa.
Contente com o resultado da montagem, Núbia, grande admiradora da obra de Suassuna, conta que a vontade de fazer a adaptação desse trabalho surgiu em função de suas características. “O Suassuna consegue retratar com humor reflexivo a seca, a miséria e a fome”, resume, concluindo que essa visão de que o sertanejo é feliz é verdadeira. “Eu sou sertaneja e posso dizer que, apesar de ter sido uma época difícil, eu fui feliz. Por isso falam que antes de tudo o sertanejo é um forte; ele encara os problemas da melhor forma”.
Mais de 40 pessoas estão envolvidas com a produção da peça, que terá cenário típico, poesia de cordel, maracatu, frevo, repente, forró, representações circenses e cuspidores de fogo. “O cenário e as músicas compõem o clima típico do sertão”, diz Núbia. Além da adaptação do texto, ela assina a direção geral. “Parte foi adaptada em versos livres e a outra parte em cordel”, conta. A direção musical fica por conta de Cláudio Vinícius Fróes Fialho, que já tocou com Egberto Gismonti e Gilberto Gil. O cenário é do arquiteto e cenógrafo Pedro Daldegan. A peça foi escrita em 1960 e teve sua primeira montagem um ano depois.
Serviço
Farsa da Boa Preguiça – Peça de Ariano Suassuna adaptada pela diretora e atriz Núbia Santana. De hoje a sábado, às 21h, na Sala Funarte Plínio Marcos (Eixo Monumental, ao lado da Torre de TV). Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Mais informações: 3242-1095.