Ana Paula Padrão demora dez minutos a menos para ir de sua casa, em São Paulo, até o SBT, do que no trajeto que fazia para a Globo. Ao trocar o comando do Jornal da Globo, em maio, por um contrato de R$ 250 mil por mês, durante quatro anos, para fazer telejornal em horário nobre no SBT, queria ter vida mais diurna – chegava a usar máscara e tapa-ouvido para dormir –, poder se dedicar ao marido, o economista Walter Mundell, e, quem sabe, até mesmo engravidar.
Os dez minutos a menos no rush, por enquanto, ainda não aliviaram a jornada de dez horas. Ana está afogada em fitas, pesquisando profissionais para sua equipe. Desenferrujar a estrutura do SBT não é mole. “Quero fazer uma usina de notícias””, avisa.
A partir de quarta-feira, vai rodar o País. Quer visitar pelo menos dez das 35 afiliadas do SBT que têm jornalismo local – são 108 no total – e que vão poder contribuir para seu telejornal, previsto para estrear em julho, entre 19h e 20h30. “Quero formar parceria com as afiliadas e botar reportagem de todo mundo na rede”, diz.
Na sua mesa também tem uma lista com uns 50 nomes de pessoas que gostaria de levar. Além de contratar pessoal em São Paulo – sete repórteres só para seu jornal –, vai fortalecer as sucursais do Rio e Brasília. “Estou feliz com esse processo, o mercado está girando, é o fim da monopolização”, espeta.
reformasReativar o jornalismo do SBT dá trabalho. A redação passa por reforma, para ficar mais ampla e receber 60 novos computadores e sistemas. Eram só 15 jornalistas para fazer o Notícias Breves, que deve ser modificado, e o Jornal do SBT, com Hermano Henning, que ganha nova roupagem. Como a redação tem o pé-direito baixo e não dava para ganhar jeito de estúdio, ela vai fazer o novo jornal de um estúdio.
Para ela, seu diferencial está na linguagem. “O telespectador quer notícia fácil de entender”, adverte. “A gente fala difícil demais, a imprensa tem que ser menos formal. Eu não sou nada formal. Gosto de conversar”.
Aos 39 anos, ela tem 18 de carreira na Globo, os últimos cinco no comando do Jornal da Globo. E não teme competir com o Jornal Nacional. “Estou muito pouco preocupada com isso. Tenho tempo nesse negócio e sensibilidade apurada. Sei o que o espectador quer”, garante.
Apesar da inconstância de Silvio Santos – que há cinco anos nem tinha diretor de Jornalismo no canal e colocou duas atrizes saídas da Casa dos Artistas para apresentar o Notícias Breves –, Ana está segura. “Tenho um contrato muito bom e confio no Silvio. Não comprometeria minha credibilidade para embarcar numa aventura”.
reportagensEla só não quer virar executiva de escritório. “Meu lado repórter é forte”, assegura. Ela pulsa com coberturas internacionais, como a Copa do Mundo, ano que vem. Mas isso terá de ser negociado com o patrão. “Ainda não sei como será. Dou um passo de cada vez”.
No novo esquema de trabalho, Ana Paula está se sentindo bem melhor. “Fui ao cinema com o Walter [o marido], ver A Queda, numa quinta-feira, sem estresse, e foi sensacional. Chegamos tão cedo que ainda fomos jantar. Dormi à meia-noite. É impagável voltar a ter vida”. É assim que, pouco a pouco, ela está refazendo sua rotina. Pronta, como destaca, para uma nova jornada com boas novidades.