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Ourives das palavras

Arquivo Geral

26/01/2006 0h00

Há pessoas que nascem com o dom da boa escrita. Parece que foram “construídas” ao mesmo tempo em que se criaram as palavras, tamanha a felicidade com que as dispõem nas linhas de um livro. O Mínimo do Máximo, edição caseira que reúne crônicas selecionadas do jornalista Massimo Manzolillo (1962-2006), apresenta ao leitor nem mais nem menos do que a personificação desse talento bem-aproveitado.
Infelizmente para o batalhão de colegas e amigos conquistados ao longo de uma história marcante na vida e no jornalismo local, Massimo não está mais aqui. Foi embora mais cedo, como costuma ocorrer aos gênios e a tanta gente que, por menos que viva, deixa marcas impermeáveis à ação do tempo. O Mínimo do Máximo é uma delas.
Massimo, não à toa merecedor do trocadilho do título do livro, foi um profissional destacado pela fluência no texto – o que faz de qualquer artigo escrito por ele uma aventura para o leitor. O detalhe é que isso vale não só para suas crônicas, originalmente formatadas em linguagem mais leve, apropriada ao gênero, como para qualquer material que ele tenha produzido nas redações dos jornais por onde passou. Ele tinha o dom de tornar prazerosa tanto a leitura de um conto quanto a de um caderno especial sobre o sistema de captação de esgotos de Brasília.
Da primeira à última linha do livro, qualquer leitor vai perceber que está diante de um verdadeiro ourives das palavras. Sob a pena leve e bem-inspirada de Massimo, as frases vão compondo numa harmonia tão arrebatadora que, de repente, você vai se sentir embalado numa valsa, ainda que nunca em sua vida tenha tido coragem de bailar.
Cada história contada em O Mínimo do Máximo traz, embutida, a propriedade de fazer com que o leitor dance como se ninguém estivesse olhando. Elegante e minucioso no garimpo das palavras, ele na verdade demonstrava não precisar se esforçar muito na meta de encontrar as melhores para desenhar cada situação descrita no rol das aventuras – e até de eventuais desventuras. Mesmo quem não conviveu com o autor vai descobrir que, ao escrever, Massimo simplesmente deixava fluir. Era como que tomado por uma entidade escrevinhadora do maior quilate.
“Computador, pra mim, é uma máquina de escrever com mais arrogância”, afirma ele em Filhas.com, uma das crônicas em que fala de Marina e Paola, suas duas filhas tão apropriadamente descritas como princesas e a quem dedicou um amor de todo tamanho. No decorrer das páginas, a propósito, não vai ser difícil entender que amar, para Massimo Manzolillo, era verbo naturalmente intransitivo: ele sabia falar de qualquer assunto com um desvelo que cruzava a fronteira da paixão sem precisar pagar pedágio.
Os personagens têm personalidade avassaladora. Muitos deles, Massimo abduziu da vida real, dando-lhes todos os contornos à conveniência do material escrito. Caricaturava seus eleitos com uma profundidade que nem fotografia é capaz de revelar, especialmente quando o assunto era descrever características físicas.
O belo e o nem tanto, sob o olhar maduro de Massimo, surgem em seus escritos como irmãos de pai e mãe, unidos por uma afinidade que resistiria a qualquer tipo de ruptura. Todos, sem exceção, tornam-se hóspedes muito bem-tratados do melhor nonsense.
“Regininha devastara Gusmão, pouco antes, ao invadir o recinto, ao som de Mulher Brasileira, trajando um body de lycra laranja com a inscrição popozuda acompanhando um decote em “V”, uma calça de brim acetinado tão grudada quanto dente de pitbull em perna de carteiro e uma camuflada calcinha recheada com espuma de lã de vidro”. Este trecho de O Submergente Emocional é apenas um aperitivo para o banquete em que se transforma, enfim, o livro.
Até sobre o ato de escrever – que era seu ofício, para deleite dos leitores de jornal – ele conseguiu produzir uma crônica nutritiva. Coisa que, produzida por outras mãos, facilmente poderia cair na enrolação textual e se tornar uma leitura enfadonha.
O Mínimo do Máximo, desta forma, se converte em um precioso manual de estilo. Vale tanto para releituras sem prazo de validade quanto para quem sente amor pelo ato de escrever e queira ou não fazer desse sentimento seu modo de vida. Ler Massimo Manzolillo é saborear um aperitivo para ver a vida com os olhos de quem gosta muito de viver.

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