Conseguir reunir em uma coleção caprichada as mais importantes obras de um autor quase nunca é tarefa fácil. Imagine se esse autor em questão for além de semiólogo renomado, ensaísta de primeira e crítico voraz da sociedade moderna, ou seja, o conceituado francês Roland Barthes?
Pois essa tarefa que poderia ter sido narrada com os feitos do grande Hércules, foi executada pela Martins Fontes Editora e já está nas prateleiras brasileiras. A editora cuidou de reeditar com todo esmero Como Viver Junto (404 páginas, R$ 45), O Grau Zero da Escrita (232 páginas, R$ 32,50), Fragmentos de um Discurso Amoroso (368 páginas, R$ 38,50), O Neutro (470 páginas, R$ 48,50), O Rumor da Língua (486 páginas, R$ 49,80) e O Grão da Voz (526 páginas, R$ 54).
Este último, talvez seja um dos mais importantes volumes da coleção pois é composto por ensaios reunidos e organizados por Leyla Perrone-Moisés. Segundo Leyla, sem dúvidas a maior responsável pela divulgação da obra de Barthes no Brasil, eles vêm repor Barthes em circulação.
“O estardalhaço da publicidade que acompanhava suas publicações nos anos 70 não se fará ouvir. Tanto melhor, poderemos agora ouvir sua voz e aprender, com ele, a escutar o sutil rumor da linguagem”, resume a organizadora.
paixão Em O Rumor da Língua, de 1984, a grande maioria dos ensaios que recobre um período de 15 anos (1964 a 1979), trata de linguagem e literatura, as duas grandes paixões de Barthes. Um deles, Malogramos sempre ao falar do que amamos, é o último texto escrito por ele, poucos dias antes do acidente que o vitimou em fevereiro de 1980.
Mas a coleção não se restringe aos textos já conhecidos. Destacam-se ainda os Cursos do Collége de France, só recentemente publicados em francês e quatro volumes temáticos já programados para futura publicação, contendo artigos até agora esparsos e que nunca receberam tradução no Brasil sobre teoria, crítica, imagem e moda e política. Um detalhe interessante é que as capas dos volumes desta edição são reproduções de aquarelas feitas pelo semiólogo. Outro destaque da coleção é O Grão da Voz, volume que contém a transcrição das principais entrevistas concedidas por Barthes nos anos em que atuou como ensaísta.
literaturaBarthes nasceu em Cherbourg e foi um dos maiores expoentes do Estruturalismo do mundo. Professor da École Pratique des Hautes Etudes e do Collége de France, publicou diversos ensaios sobre a literatura clássica e contemporânea, sobre as relações existentes entre os mitos e as instituições sociais, sobre o desencontro que se verifica entre a linguagem como patrimônio coletivo e a linguagem individual, além de ter desenvolvido uma fecunda teoria semiológica.
Barthes questiona, instiga o leitor a acreditar que ler uma obra literária é sempre uma experiência única. “Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com freqüência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário por afluxo de idéias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça? É essa leitura, ao mesmo tempo irrespeitosa, pois que corta o texto, e apaixonada, pois que a ele volta e dele se nutre, que tentei escrever”, diz o autor.