Ricardo Noblat é um jornalista que exercita a profissão, procurando ver, diariamente, o que há de profundo e mais revelador em um fato. Tenta, como um cuidadoso arqueólogo, tirar a poeira e a crostra que há por cima do objeto de avaliação. O que se revela é o que vale a pena mostrar. O prazer desta prática se desvela em O que é Ser Jornalista, o novo livro da série Memórias Profissionais, da Editora Record, que o autor lança hoje, às 19h30, na Cervejaria Monumental (202 Sul).
Quando começou na profissão, em 1967, Noblat sempre soube o que queria fazer: jornalismo político. O inspirador era o Castelinho, escritor de uma coluna no Jornal do Brasil sobre o poder que tornou-se uma referência para os jornalistas. “Meu sonho era poder substituir um dia o castelinho”. Mais tarde, substituiria interinamente o mestre, em meio a um aprendizado que incluiu passagem por veículos importantes como o próprio Jornal do Brasil, Revista Manchete e Veja.
O exercício da profissão o ensinou a manter um relacionamento nada romântico com o poder, em todas as suas instâncias, que ele conta um pouco em O Que é ser Jornalista.”Aprendi que você raramente testemunha o fato, por isso tem que cultivar a fonte para obter a informação. Não basta ter a informação, tem que pensar sobre ela, ver para onde ela aponta, que histórias aquela informação tem para contar”, argumenta Noblat.
Na relação com o poder, o jornalista busca um distanciamento que preserve sua integridade. E isto leva necessariamente, segundo ele, a algumas posturas desumanas:”Por mais cruel que pareça, o jornalista tem que ter poucos amigos. Ele não pode ser amigo daquela pessoa que um dia pode virar notícia, porque corre o risco de ter que falar mal dela e assim perder a amizade”, esclarece.
“Você tem que desconfiar do poder sempre. Isto força o profissional a ser mais rigoroso com a informação, ser mais seletivo”, sugere. E alerta: “O poder, independentemente de sua cor, detesta crítica. Ele quer o elogio. E é isso que espera da mídia”.
Noblat, um crítico mordaz das assessorias (“onde a única coisa que não se faz é jornalismo”) e dos jornais que “deixam de investir no material humano (jornalistas mais experientes) que produz conteúdo”, está afastado das redações. Escreve hoje em um blog (noblat.blig.com.br) informativo próprio, onde continua tentando descobrir, com o mesmo afã de sempre, o que os fatos escondem.