Um Deus que gostaria de se chamar Houston, um Lúcifer complacente e dois anjos de temperamentos diferentes, mas com um sentimento em comum. Sete Dias para uma Eternidade, romance do escritor francês Marc Levy, lançado recentemente no País, é um novelão, com algum humor e muita pieguice, que tem tudo para agradar àqueles que querem uma leitura leve e descompromissada com o real.
Quem já leu qualquer uma das obras escritas por Marc Levy, como E se Fosse Verdade… e Onde Está Você?, vai se sentir em casa. Sete Dias para uma eternidade tem todos os clichês típicos dos filmes hollywoodianos.
O sentimentalismo à flor da pele, o embate entre o bem e o mal e a tentativa, muitas vezes frustrada, de fazer graça fazem da obra um convite ao lugar comum. A literatura está cheia de anjos e demônios, de obras que se apropriam da iconografia e temas católicos. Muitos não resistem a mexer com o Deus e o Diabo. Grande parte se queima ao retomar esta temática tão sedutora. Em sua tentativa, pode se dizer, Levy se chamuscou.
Afeito a temas sobrenaturais, o francês com alma americana já havia explorado em Um Estranho Amor, a paixão de um homem pela “alma” de uma mulher em coma. Em Sete Dias para uma Eternidade, a trama envereda para o fantástico. E ponha fantástico nisso.
A história leva o leitor a uma aposta estapafúrdia feita entre Deus e o Diabo. Os dois deveriam mandar seus melhores “agentes”, como são chamados os anjos do bem e do mal para tentar semear o caos ou a harmonia em uma cidade americana. Quem chegasse ao seu objetivo primeiro iria definir o destino da humanidade. Se o ano do mal ganhasse, Lúcifer tiraria das mãos do homem o poder de definir os rumos do planeta Terra. Se este perdesse, o mundo continuaria sob a antiga direção.
Este velho esquema maniqueísta coloca em confronto Zofia, o anjo do bem, e Lucas, o enviado do demo. O inusitado acontece: bem e mal acabam criando laços afetivos e o acaso muda todo o script imaginado pelos “chefes” todo-poderosos dos dois agentes.
O livro cai diversas vezes num sentimentalismo fácil, protagonizado por um anjo que vive fazendo boas ações para os desvalidos e deserdados do coração. O mal é “fabricado” com todo cinismo pelo endemoniado Lucas que, a princípio, provoca algumas maldades, mas que, depois, acaba virando a casaca e perdendo o seu charme.
A torcida e a tendência para o “lado do bem” é o que realmente estraga o romance. No início impactante do livro, Lucas diverte-se com uma velha senhora dentro de um avião estremecido por uma grande turbulência. Este humor negro que poderia diferenciar o livro de outros escritos do gênero é substituído por um romance açucarado com direito a buquê de flores e jantares à luz de velas que terminam por diluir a história.
A doce Zofia, por sua vez, é um pecado para diabéticos tamanho o grau de generosidade que ela esparge. Tão grande amor e moral elevada tiram da personagem uma humanidade que faria muito bem ao livro. Vá lá que ela não é exatamente humana, mas os sentimentos que estimula são de total alçada dos pobres mortais. Por isso, não fica difícil cobrar dela reações mais raivosas.
Tanto açúcar e o romance inédito entre as forças opostas que movem o mundo são misturados a tiradas e algumas circunstâncias criativas. É o caso das reações de Deus, o melhor personagem da história, cujo hobbie é assistir ao lançamento de naves ao espaço. Afinal, tal tecnologia é o que apoxima mais o homem do todo-poderoso. Por isso, ele troca o nome de “Senhor” pelo de Houston, onde fica a estação espacial da Nasa. Por isso, não se espante se o romance de Marc Levy virar mais um longa-metragem hollywoodiano, o que não deve demorar a acontecer.