Dez anos depois de um acidente provocado por um irresponsável motorista de caminhão (às vésperas do Natal, em uma rodovia paulista) ter calado uma das vozes mais carismáticas do rádio e da TV brasileira, voltamos a conviver com Osmar Santos, em um “livro-amor” nos presenteado por Paulo Mattiusse.
Sou até suspeito para comentar o trabalho, pois convivi muito com o Osmar nos meus primeiros dez anos de Jornalismo Esportivo, quando eu viajava por esse país inteiro acompanhando o Brasília Esporte Clube nos campeonatos nacionais dos anos 70 e 80. Lembro-me muito bem que eu, garotão de vinte-e-poucos anos, estava sempre no alvo das gozações da galera, devido o meu glorioso sotaque baiano. Osmar; Geraldo Blota, o GB (Rádio Bandeirantes), Paulo Roberto (Rádio Inconfidência de BH); Solange Bibas (A Gazeta Esportiva); Luciano do Vale (TV Globo); Sérgio Noronha (O Globo) e Valdir Amaral (Rádio Glovo-RJ) eram os que mais “caçoavam de mim”, isto é, me pegavam no pé.
Por aquele tempo, jovem fazer Jornalismo Esportivo era raro. Osmar tinha lá seus 35/36 anos, mais ou menos, e nos fazia verdadeiras conferências sobre como prender o ouvinte/telespectador. Eu, Flávio Prado, Eduardo Bueno, o Peninha e um cara chamado Ivan, da Tribuna de Santos, os únicos jovens no grupo dos jornalistas esportivos da época, babávamos o escutando.
Não conheço o autor do livro, mas pelo que ele narra nessas páginas tão bem pesquisadas o vejo dando uma contribuição muito importante para os futuros comunicadores esportivos, ou de outras áreas, também, pois Osmar Santos era um sujeito politizado na mesma época que transmitia o esporte pelo rádio/TV. Tanto que na época da campanha das Diretas, Já! foi o convidado especial dos políticos oposicionistas ao regime militar para comandar a comunicação entre eles e o povo nos comícios.
Por sinal, encontrei no livro (página 126), um relato que confere com o que Osmar muitas vezes alertou-nos: “o jornalista esportivo não deve ser um alienado político, como no passado e que gerou a fama de analfabeto para quem cobria esporte e polícia”. Ele contava que, ao chegar à Rádio Jovem Pan (SP), em 1972, com 22 anos, não tinha nenhuma consciência político-social, e até achava que o Brasil do presidente Garrastazu Médici estava no caminho certo. Portanto, Mattiusse radiografou o cara nos mínimos detalhes.
O autor foi até a infância de Osmar, passou pela sua adolescência e chegou até o trabalho profissional do homenageado com uma narrativa tão simples e gostosa de se ler que (pelo menos comigo foi assim) dá a vontade de não parar mais de conhecer (quem não conhece, é claro) este ser humano tão rico que é o Osmar Santos.
Ele lança o livro em muito boa hora, pois o brasileiro tem memória curta e as novas gerações que hoje vivem na internet e no celular desconhecem quase tudo que marcou nosso passado, até mesmo o mais recente. A contribuição de Osmar à comunicação não deve jamais ser esquecida.
Por isso Mattiusse dá à sua obra também um verdadeiro sentido de relato histórico do rádio moderno no Brasil, a partir das contribuições de Osmar. Sim, foi o Osmar que fez o povo incorporar ao eterno espírito festivo brasileiro expressões como, só para citar duas, “pimba na gorduchina”, “animaaaal!”, este um termo que consagrou (e também engordou a conta bancária de Edmundo, hoje no Fluminense), mas que começou com o ex-goleiro Zetti, do Palmeiras, e que passou ainda pelo lateral Cafu, na época no São Paulo. Não me estendo mais sobre o “livro-amor” do Mattiusse para não tirar a graça da descoberta do leitor. Prefiro recomendar: vai nessa, cara: “pimba na gorduchinha!”.