O que se pode esperar de uma peça que tenha como diretor Miguel Falabella? Bem, no mínimo, muitas risadas. Com um invejável currículo no ramo da comédia, o ator e diretor faz a estréia nacional, em Brasília, do espetáculo A Maracutaia, uma adaptação de A Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527), considerada uma das grandes obras-primas da dramaturgia mundial e que marcou o florescer de um dos períodos mais férteis das descobertas humanas: o Renascimento. A peça será apresentada hoje e sexta-feira, às 21h, sábado, às 19h e 21h, e domingo, às 20h, no Teatro Plínio Marcos – Complexo Cultural Funarte.
Em 1994, com o lançamento do real, e na ressaca da era Collor, os atores José Wilker e Giuseppe Oristânio começaram a discutir a possibilidade de fazer uma peça que retratasse a crise política de forma cômica, abordando escândalos protagonizados por Fernando Collor, PC Farias e companhia. Giuseppe sugeriu A Mandrágora, que ele já tinha feito com o Grupo Tapa.
Como a intenção era adaptar a obra ao gênero cômico, logo os atores pensarem em um diretor para fazer isso: Miguel Falabella. A idéia deu certo. Em 1994, estreou o espetáculo A Maracutaia que, em dois anos de temporada, atraiu mais de 400 mil pessoas ao teatros de todo o País.
Dez anos depois, com o estouro de novos escândalos políticos, Falabella encontrou ocasião perfeita para a nova montagem: “Com o passar do tempo nós envelhecemos, tudo muda, menos a corrupção, que se mantém”, ironiza o diretor, em entrevista ao Jornal de Brasília. Segundo ele, com o fim da novela A Lua Me Disse, de sua autoria, em parceria com Maria Carmem Barbosa, os artistas ficaram desempregados e precisavam de uma oportunidade: “Sabe como é, o desemprego está muito elevado. Por isso, tive que criar esse projeto”, brinca.
Para ele, tratar a corrupção com comédia é uma forma de evitar a loucura. “Temos que rir dessa situação. O texto é feito em desenho animado porque, na verdade, é isso que é, uma grande brincadeira”, conta o autor, ressaltando que não atuará na peça, por causa das gravações de seu programa de fim de ano junto a atores como Debora Bloch e Diogo Vilela.
escândalos
Miguel Falabella afirma que a peça retratará, de forma agradável, as CPIs e as crises que andam tirando o sono da população. “A comédia é um ótimo artifício para criticar e ao mesmo tempo fazer o público refletir sobre o assunto. Escrevi pensando nisso, o problema é que não tenho como fugir do engraçado. Eu sou assim”, assume o diretor, lembrando que a comédia está no sangue. “Eu era um bebê engraçado. Quando eu era pequeno, a minha família me pagava Cr$ 1 para eu fazer gracinha”, recorda.
O espetáculo ficará em turnê pelo Brasil até o fim do ano, quando, então, vai para o Rio de Janeiro. “É uma ótima atração para o público, com muitas risadas garantidas”, antecipa Falabella, revelando que apesar dos diversos trabalhos de diretor sua paixão é mesmo atuar. “Gosto mesmo de escrever e de atuar. Creio que daqui em diante devo deixar a direção de lado, não é o meu dom”.
Com um elenco global já conhecido do público, composto por Luis Salem, Thelma Reston e Giuseppe Oristânio, que participaram da adaptação original, e Juliana Baroni, Tadeu Melo e Rafael Paiva, que integram a nova montagem, o espetáculo trata da corrupção, do sexo, da ambição, enfim, escândalos presentes no meio político.
“O Miguel transferiu a ação de A Mandrágora, que aborda esses assuntos, em 1503, para o Cerrado de Brasília, de 1995. A ação sai de Florença e se muda para o Lago Sul, para os gabinetes do Congresso Nacional, ou seja, para o clima político”, antecipa Giuseppe Oristânio.
Segundo o ator, na versão original o espetáculo só foi apresentado durante dois anos, por causa da calmaria do cenário político. “Na época, depois de estourar as bombas, tudo ficou calmo. Achei que não pudesse acontecer de novo, mas vi que estava enganado”, lamenta.
Lobistas, marqueteiros, deputados, mulheres de deputados e padres integram a realidade da composição política para dar mais veracidade à trama. “Eu faço um lobista, que não tem cargo político, mas articula com o padre, com o deputado, enfim, com quem for preciso para ganhar um percentual nos enormes lucros que serão obtidos”.
Serviço
A Maracutaia – Direção de Miguel Falabella. Adaptação de A Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527). Hoje e sexta-feira às 21h, sábado às 19h e 21h, e domingo, às 20h, no Teatro Plínio Marcos (Funarte, no Eixo Monumental). Ingressos a R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), antecipados no Pier 21. Informações: 3226-9228.