“Final dos anos 40. Ainda chorando a perda de seu herói na luta contra o nazifacismo, o pracinha Francisco de Paula Moura Neto, morto aos 27 anos no terceiro ataque da Força Expedicionária Brasileira a Monte Castelo, em novembro de 1944 (o objetivo seria conquistado em fevereiro do ano seguinte), a Vila de Arapuá se engalanou para a maior festa de sua história: a visita do abastado bispo de Luz, dom Manoel Nunes Coelho. Evento tão importante que o comitê de recepção escolheu o jovem Sinval Boaventura – de tradicional família da região e dono de incomparável apetite político – para acompanhar o governante espiritual na inspeção a um dos mais recônditos rebanhos da diocese. Para o povo, um acontecimento da mais elevada significação; para o jovem, também católico fervoroso, a chance de impulsionar o projeto político. Deu certo. (…)
O povo, bandeiras, e terço nas mãos, tomou a rua logo de manhã. Os homens mais influentes – chefes políticos, comerciantes e fazendeiros – de terno e gravata e o chapéu que dali a pouco iriam tirar em reverência ao pastor; os outros, roupa de domingo e botinas bem engraxadas. As mulheres, naturalmente antenadas à moda, ostentaram as novidades que iriam desencadear o padrão estético dos anos 50, lançadas por estilistas famosos, como o francês Christian Dior. Sem recursos técnicos, mas infladas de vaidade – aqui despida da aura pecaminosa para se cobrir com o manto da virtude, posto que servia a uma causa nobre, o realce da beleza -, copiaram das revistas as saias rodadas e a cintura marcada, conhecida como “cintura de vespa”, forma que alcançavam com o uso de uma cinta apertada. Os sapatos tinham o salto alto e o bico fino. Algumas, de chapéu, outras, de permanente; poucas com luvas até o punho. E, claro, as meias de nailon foi toda destinada à fabricação de pára-quedas), começavam a aparecer nas lojas. A volta das meias, dizia-se, foi uma das três maiores satisfações femininas do pós-guerra. As outras foram as invenções do inseticida e da penicilina.”