Não é fácil gostar de documentário. Geralmente são teses enfadonhas defendidas por professores de cinema que parecem estar cumprindo uma tarefa. Há dois anos, também no Festival de Brasília, Silvio Tendler brilhou com essa linguagem e venceu o festival na opinião do público com seu primoroso retrato de Glauber Rocha. No ano passado, o brasiliense Bernardo Bernardes deu uma aula aos veteranos do gênero, inovando a linguagem documentarista com seu belo poema a Cassiano Nunes – que está na espera da seleção para disputar um troféu em Paris. Este ano outra surpresa: A Vida é Um Sopro, excelente trabalho de Fabiano Maciel sobre a vida e a obra de Oscar Niemeyer. Se não fosse hors concours, certamente estaria na disputa do Candango de melhor filme.
Maciel mostra o lado humano de Oscar Niemeyer como nunca antes havia sido revelado. Brincalhão, genial, sortudo e, sobretudo, brasileiro. Durante a projeção, um gaiato gritou: “Comunista”. Como se isso fosse ofensa. Hoje em dia é algo ultrapassado ser comunista. Mas na época em que Niemeyer fez essa opção política pensava-se ser uma alternativa. As décadas de 30, 40 e 50 foram um período de idealizações, de formulações de modelos. Alguns deram certo, outros naufragaram, mas Oscar Niemeyer conseguiu manter viva a sua principal ideologia: a arquitetura.
O filme de Fabiano Maciel é um trabalho histórico, pedagógico, elucidativo e de vital importância para as novas gerações. Nele, Niemeyer – que é um gênio – mostra porque a mediocridade vence em vários aspectos. E Brasília, pilar dessa história, pelo menos no que cerne à criação, serve de exemplo para verificarmos isso. O próprio Niemeyer afirma que a cidade está sendo conduzida de forma equivocada. Crescendo demais e para o lado errado. “Deveria ter um cinturão verde e em torno dele as cidades e não esse cinturão de miséria. Deveriam parar”. Sábio Niemeyer, foi aplaudidíssimo nesse momento.
A cidade que ele criou com Lúcio Costa não existe mais. O filme de Fabiano Maciel deixa isso muito claro. Quem viveu aquela realidade viveu. Os que vieram depois vão ouvir falar. Os que ficarem para ver o depois devem se posicionar contra o desmoronamento daquele sonho. Os governos local e federal deveriam comprar esse filme e exibi-lo em todas as escolas do País.