O compositor e cantor Alceu Valença divide sua paixão entre sua terra natal, Olinda (especialmente em época de Carnaval), e a cidade que adotou, o Rio de Janeiro (onde vive há 30 anos). Mas foi a capital brasileira a cidade eleita pelo músico para fazer o show de lançamento oficial da turnê do seu novo CD de inéditas, Na Embolada do Tempo. “Sinto-me à vontade aqui em Brasília. O público é muito carinhoso. Então, achei justo começar a divulgação por aí”, contou Alceu ao Jornal de Brasília em entrevista por telefone. Ele aproveita para lembrar que seu cancioneiro rende homenagens à cidade criada por JK com as músicas Plano Piloto e Eu Amo Brasília.
A estréia do novo show de Alceu será hoje, no Autódromo Internacional Nelson Piquet, na festa Todas as Tribos, que reúne em outros quatro ambientes apresentação dos DJs Poli (Holanda), Mack (SP) e Garu (DF) e das bandas brasilienses Pé de Cerrado, Carcará, Chico Science Cover, Madeira (cover de Bob Marley), The Seven (cover Led Zeppelin, Pink Floyd e Jimi Hendrix) e Os Poortas (cover da banda the Doors).
Dentro da variedade de estilos do evento, Alceu aproveita para mostrar seu som mutante – isoladamente diversificado. “A metamorfose e a diversificação são necessárias ao artista, para que a arte esteja em evolução”, defende o músico. Para esta primeira apresentação em Brasília, o pernambucano apresentará apenas cinco das 12 faixas que compõe o disco, entre elas, Na Embolada do Tempo, Samba do Tempo, Ai de Ti, Copacabana e Noite Vazia (de 1970, mas nunca gravada). O repertório completa-se com as eternas Morena Tropicana, Papagaio do Futuro, Bicho Maluco Beleza, Diabo Louro, Solidão e Coração Bobo.
personalidade Este é um momento da carreira de Alceu (que completa 35 anos de estrada) em que ele busca por uma nova personalidade. O músico revê suas influências, de Luiz Gonzaga a Jackson do Pandeiro, e diz fugir de padrões – afinal, ele nunca se adaptou às tendências de mercado. “Conheço a cultura do meu povo, o maracatu, o afoxé, o coco, a ciranda e o samba-canção. Por isso posso mudar. O artista que fica em cima de ícones da indústria é o subproduto de U2, Rolling Stones e Madonna”, ataca Alceu.
O músico, por outro lado, se defende: “Se ficasse pensando em Gonzagão a vida toda, eu mesmo seria um subproduto. A mim cabe fazer a síntese de tudo que conheço para formar minha personalidade”. O novo disco não poderia ser comparado a nenhum trabalho anterior. Na Embolada do Tempo reúne as principais influências das origens pernambucanas (o frevo, o baião e o coco), numa linguagem contemporânea e refinada, como a da bossa nova.
A mente inquieta de compositor, particularmente neste álbum coloca a música eletrônica em favor da embolada e resgata o frevo-canção – gênero que, segundo ele, resiste numa espécie de sobrevida. “Ninguém sabe mais cantar frevo, nem mesmo no Carnaval de Pernambuco”, critica. “Tenho um compromisso com essa cultura, porque eu penso o Brasil, e o Brasil está passando por um problema cultural grave, de perda de referências”. Masarremata: “Não tenho nada contra o pop”.
Serviço
Todas as Tribos – Festa com quatro ambientes e show de lançamento da nova turnê de Alceu Valença. Hoje, a partir das 22h, no Autódromo Internacional Nelson Piquet. Ingressos a R$ 40 (inteira, pista) e R$ 60 (inteira, camarote), com meia-entrada válida para estudantes.