Lionel Messi mexeu com a política argentina às vésperas da final da Copa do Mundo. Em entrevista ao canal TyC Sports, o camisa 10 falou sobre o papel da seleção em levar alegria ao país e citou pessoas que enfrentam dificuldades econômicas, sem trabalho ou sem dinheiro para chegar ao fim do mês.
Eu ainda estava no ritual do fondue, já naquela fase em que todo mundo começa a jurar que “só mais um pedacinho” não conta como exagero, quando Messi resolveu entrar em campo também na economia. Levantei a sobrancelha, porque final de Copa com Argentina já vem carregada de drama. Quando o camisa 10 fala de povo sem dinheiro até o fim do mês, minha filha, o jogo sai do gramado e invade a Casa Rosada.

“Sabemos que as Copas do Mundo são especiais para nós e nos esquecemos de tudo de ruim que temos que passar”, disse Messi. Em seguida, o craque completou: “Há pessoas que passam por momentos difíceis, que não têm trabalho, que não chegam ao fim do mês ou que vivem lutando”.
A fala repercutiu imediatamente. Parte dos torcedores interpretou o comentário como uma crítica velada ao governo de Javier Milei, justamente no dia em que a Argentina se prepara para enfrentar a Espanha na decisão do Mundial.
O governo argentino respondeu por meio de nota e tratou Messi como “o melhor jogador de futebol da história”. No comunicado, Milei reconheceu que o diagnóstico do craque sobre as dificuldades da população era verdadeiro, mas jogou a responsabilidade na conta dos governos kirchneristas.
“Sobre as palavras do melhor jogador de futebol da história, Lionel Messi, de que há pessoas que estão passando por dificuldades, isso é totalmente verdade”, começou a nota. Depois, veio o recado político: “Duas décadas de decadência kirchnerista não podem ser apagadas em 24 meses”.
Eu respirei fundo e fui mexer no guardanapo como quem tenta organizar a própria cabeça. Porque Messi falou em sofrimento social, Milei respondeu com culpa herdada, e a final nem tinha começado. Se isso fosse novela, a chamada seria: “Antes da taça, o climão”.
O governo também rebateu versões de que Milei teria ficado irritado com a fala do jogador. A tentativa foi blindar a relação com Messi e, ao mesmo tempo, usar a declaração para reforçar a narrativa política do presidente contra seus adversários.
A fala de Messi ganha ainda mais peso porque acontece poucas horas antes daquela que pode ser sua última final de Copa do Mundo. Aos 39 anos, o camisa 10 chega à decisão contra a Espanha como símbolo máximo da seleção argentina e tenta conduzir o país a mais um título mundial.
Do ponto de vista esportivo, ele tenta levantar a taça. Do ponto de vista simbólico, acabou lembrando que, fora do estádio, a Argentina enfrenta outra partida: inflação, crise, emprego difícil e famílias tentando fechar as contas.

E é isso que torna a fala tão forte. Messi não precisou citar Milei, partido ou oposição. Bastou dizer que tem argentino que não chega ao fim do mês para acender a fogueira inteira. Craque desse tamanho não precisa gritar. Um comentário dele já sai com som de coletiva nacional.
Agora, a Argentina entra em campo com duas pressões no peito: ganhar da Espanha e dar ao povo uma alegria que dure mais do que os 90 minutos. Porque, se Messi levantar a taça, Milei vai querer a foto. Se perder, a frase do “fim do mês” continua ecoando bem depois do apito final.