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Música marcada pela inquietação

Arquivo Geral

23/08/2004 0h00

De vez em quando, ainda que muito raramente, surge no cenário musical brasileiro uma banda que tem algo diferente a mostrar. Logo é apontada como uma esperança de renovação e um sopro de inteligência num mercado saturado de grupos insossos e repetitivos. A bola da vez é a paulistana Gram, que acaba de lançar pela independente Deckdisc o seu trabalho de estréia.

Nas internas, a banda já era comentada à miudo. Os “descolados” e aqueles mais atentos à música de qualidade e alternativa já haviam ouvido falar no Gram. Agora, com o debut em disco, todos vão poder conferir se a banda é tudo aquilo que falam dela. A primeira impressão é de que o conjunto não é a oitava maravilha do mundo, mas é um sinal, sim, de vida inteligente na cena roqueira brasileira.

A gravadora do grupo tentam emplacar uma comparação da Gram com grupos díspares e que tem em comum a inquietação, como Los Hermanos e Radiohead. O próprio vocalista da banda paulista afirma que ela está mais para os ingleses, incluindo o Coldplay na lista, do que para os cariocas.

A audição do CD contesta aquela afirmação. Há ecos de Los Hermanos em músicas como Reinvento e Toda Luz, assim também como o clima etéreo de Radiohead em Seu Troféu e Moonshine. Mas, isto não quer dizer que a Gram tenta imitar as duas bandas. O que há é a opção sonora por um caminho marcado pela melodia e arranjos mais trabalhados e pela dissonância, que não é uma prerrogativa de ninguém.

Os rapazes do Gram, formado por Sérgio Filho (vocal e piano), Marco Loschiavo (guitarra), Luiz Ribalta (guitarra e voz), Marcelo Pagotto (contrabaixo) e Fernando Falvo (bateria), tentam fazer a diferença se aventurando em melodias que podem soar estranhas num primeiro momento. Apurando um pouco mais o ouvido, contudo, há de se constatar que existe um esforço sincero e muito talento naquela tentativa.

Os bem elaborados arranjos não escondem, porém, a desigualdade criativa das canções – pelo menos no aspecto melódico, o que dá, no final da audição, uma sensação de um resultado que se pode chamar de meia-boca. Há, entretanto, ao menos, uma canção belíssima que mostra o potencial do grupo e já nasce clássica, Você Pode Ir Na Janela, a faixa que abre o CD.

No aspecto das letras, o Gram não nega fogo. Ótimas construções poéticas como pode ser visto na já citada Você Pode… (“Você só me fez mudar/Mas depois mudou de mim”) e em Reinvento (Quem inventou você fui eu/Porém/ Tenho que desinventar/Pro bem/Preciso me livrar de tudo o que é você/Um espaço pra criar um outro alguém) demonstram que os músicos tem estofo e sensibilidade.

Tudo isso faz pensar que o Gram está no rumo certo, mas não foi desta vez que conseguiram acertar em cheio. Pode até parecer um velho chavão de crítica musical, mais o fato é que a banda tem tudo para fazer um belo segundo álbum. Enquanto isso, ouça o primeiro. Vale o investimento.

Gram – CD de estréia do grupo paulista (Deckdisc). 10 faixas. Preço médio: 15.

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    23/08/2004 0h00

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    Nas internas, a banda já era comentada à miudo. Os “descolados” e aqueles mais atentos à música de qualidade e alternativa já haviam ouvido falar no Gram. Agora, com o debut em disco, todos vão poder conferir se a banda é tudo aquilo que falam dela. A primeira impressão é de que o conjunto não é a oitava maravilha do mundo, mas é um sinal, sim, de vida inteligente na cena roqueira brasileira.

    A gravadora do grupo tentam emplacar uma comparação da Gram com grupos díspares e que tem em comum a inquietação, como Los Hermanos e Radiohead. O próprio vocalista da banda paulista afirma que ela está mais para os ingleses, incluindo o Coldplay na lista, do que para os cariocas.

    A audição do CD contesta aquela afirmação. Há ecos de Los Hermanos em músicas como Reinvento e Toda Luz, assim também como o clima etéreo de Radiohead em Seu Troféu e Moonshine. Mas, isto não quer dizer que a Gram tenta imitar as duas bandas. O que há é a opção sonora por um caminho marcado pela melodia e arranjos mais trabalhados e pela dissonância, que não é uma prerrogativa de ninguém.

    Os rapazes do Gram, formado por Sérgio Filho (vocal e piano), Marco Loschiavo (guitarra), Luiz Ribalta (guitarra e voz), Marcelo Pagotto (contrabaixo) e Fernando Falvo (bateria), tentam fazer a diferença se aventurando em melodias que podem soar estranhas num primeiro momento. Apurando um pouco mais o ouvido, contudo, há de se constatar que existe um esforço sincero e muito talento naquela tentativa.

    Os bem elaborados arranjos não escondem, porém, a desigualdade criativa das canções – pelo menos no aspecto melódico, o que dá, no final da audição, uma sensação de um resultado que se pode chamar de meia-boca. Há, entretanto, ao menos, uma canção belíssima que mostra o potencial do grupo e já nasce clássica, Você Pode Ir Na Janela, a faixa que abre o CD.

    No aspecto das letras, o Gram não nega fogo. Ótimas construções poéticas como pode ser visto na já citada Você Pode… (“Você só me fez mudar/Mas depois mudou de mim”) e em Reinvento (Quem inventou você fui eu/Porém/ Tenho que desinventar/Pro bem/Preciso me livrar de tudo o que é você/Um espaço pra criar um outro alguém) demonstram que os músicos tem estofo e sensibilidade.

    Tudo isso faz pensar que o Gram está no rumo certo, mas não foi desta vez que conseguiram acertar em cheio. Pode até parecer um velho chavão de crítica musical, mais o fato é que a banda tem tudo para fazer um belo segundo álbum. Enquanto isso, ouça o primeiro. Vale o investimento.

    Gram – CD de estréia do grupo paulista (Deckdisc). 10 faixas. Preço médio: 15.

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