Bit é o resumo de todo aquele brainstorm (tempestade de idéias) musical desenvolvido no mangue de Recife. Bit é o molejo do samba, associado à inconformidade do rap e à atitude do punk. Por fim, bit é a sensação de andar por um mundo livre, ou melhor, pelo Mundo Livre S/A, que despeja de uma vez no mercado fonográfico todo o arsenal de protesto político de dez anos de banda, reunido na caixa Bit (Deckdisc).
O quinteto pernambucano liderado pela mente inquieta de Fred Zero Quatro tem relançados, numa só edição, os quatro primeiros álbuns e mais um DVD, com registo audiovisual de dez canções, seja como videoclipe, ou em gravações aleatórias ao vivo. Só não entrou na compilação a reedição do quinto disco de estúdio do grupo, O Outro Mundo de Manuela Rosário, o mais politizado e sensível de toda a discografia.
A Deckdisc acertou em cheio na edição comemorativa de uma década do debut dos roqueiros do mangue. A caixa dispõe de todos os encartes originais, com suas respectivas informações, num produto reduzido, com acabamento de baixo custo, porém, luxuoso.
O Mundo Livre conta sua história (para quem não a conhece) e invoca as lembranças do intenso período em que a banda protagonizou, ao lado de Chico Science e a Nação Zumbi, o ideológico movimento manguebeat, em meados dos anos 90. O beat do quinteto de Fred Zero Quatro, Tony Regalia, Fábio Malandragem, Bactéria Maresia e Otto Fuleiragem (substituído em 98 pelo percussionista Marcelo Pianinho), é catalogado a partir do primeiro disco, Samba Esquema Noise, de 1994.
A MTV abraçou a turma do mangue e até mirou algumas vezes suas câmeras para os riffs nervosos daquela primeira e grande ironia do Mundo Livre, capitaneada pelos versos de Livre Iniciativa e A Bola do Jogo, hits que lhes renderiam – pelo bem ou pelo mal – as atenções do público.
Em 1996, a militância de Jaboatão dos Guararapes (periferia de Recife) soltou o Güentando a Ôia, mais ousado e menos conceituado. O samba-punk rock do Mundo Livre ganha mais molejo, com a saída de Otto, em Carnaval na Obra (1998): suingue acentuado e batucada alegre. Em 2000, encerra-se a memória da banda catalogada na caixa, com Por Pouco, o menos famoso de todos, no qual Zero Quatro exige mais de seu cavaquinho, poupa as guitarras (com certa discrição) e insere arranjos de metais. O DVD, por sua vez, não apresenta grandes novidades, tão somente incrementa o produto como um todo.
O manguebeat, especialmente o do Mundo Livre S/A, não ganhou a popularidade da Tropicália; muito menos o reconhecimento da bossa-nova. Porém, desbravou desconhecidas fronteiras do lugar-comum da Música Popular Brasileira e injetou, ao menos, uma pequena dose de criatividade na veia daqueles que vieram após, ou estão por vir.
Bit – Caixa com quatro CDs e um DVD da banda Mundo Livre S/A (Deckdisc/2004). Preço médio não-fornecido.