Tiro certeiro em termos de resgate da vanguarda do cinema nacional, Glauber o Filme, Labirinto do Brasil, do cineasta Silvio Tendler, nem deveria entrar na mostra competitiva do 36º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É, de longe, um trabalho com status de hors-concours.
Glauber Rocha, cineasta baiano que revolucionou a história do cinema brasileiro, chegou ao ponto de tornar-se, por si próprio, um nutritivo sinônimo de inovação e brasilidade. Verdade que, em nível global, tal predicado só se instalou após a morte de Glauber, em 1981, tornando-o mais uma entre tantas figuras cujo valor só veio a ser reconhecido no plano póstumo.
Nem por isso a fúria criativa acentuada por uma proposta antropofágica de Glauber passou despercebida por seus contemporâneos. Muito pelo contrário. Mas acontece que o cineasta fez parte daquela geração brilhante que, apesar da inegável expressão na arte nacional, funcionava nos tempos bicudos da ditadura ostensiva. Gente que aprendeu a cifrar para poder passar seu recado.
Labirinto do Brasil mostra a trajetória desse ícone que foi Glauber Rocha. E o faz por meio de um casamento feliz com os recursos contemporâneos de edição e as imagens, essas sim, captadas de um tempo em que a tecnologia não era a referência maior. Depoimentos, trechos de filmes e documentários – inclusive alguns cujo som foi sabotado, sabido que é o panorama de interdição que os artistas antenados enfrentavam naquela época – e falas preciosas do homenageado maior do filme compõem a obra.
“Glauber morreu porque não suportaria ficar no mundo de hoje, sem grandezas heróicas, sem idéias de revolução”, diz Arnaldo Jabor. É o que fica claro quando vamos nos familiarizando com o perfil do baiano, que, irreverente e criativo, deixou o aprendizado de que a indignação se constitui no ingrediente fundamental para quem sabe que o mundo pode ser melhor.