A era da cybertecnologia já domina mentes e máquinas de todo o mundo há pelo menos uma década. Informações, gráficos, periféricos e transmissão de bytes a mil por hora são fato cotidiano desde a popularização da internet, em meados da década passada. No entanto, a trilha sonora disso tudo começou a ser composta em 1970, quando dois estudantes de música clássica do conservatório da cidade alemã de Düsseldorf resolveram montar sua própria usina musical, batizada de Kraftwerk. E, depois de várias mudanças de formação (estabilizando-se com a adição de Fritz Hilpert e Henning Schmitz), mas sempre contando com Florian Schneider e Ralf Hütter, a banda alemã se apresenta hoje, às 21h, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Brasília é o terceiro e último ponto da turnê nacional – antes, passaram por São Paulo (no Tim Festival) e Rio de Janeiro.
Aliás, a inclusão da capital federal na viagem pelo Brasil foi um pedido da própria banda. Eles são admiradores da arquitetura de Oscar Niemeyer e têm a intenção de passear pelos monumentos brasilienses. Em sua primeira passagem pelo Brasil – estiveram em 1998 no Free Jazz Festival – eles já haviam demonstrado este interesse.
O grupo mostra o show da turnê Tour de France Soundtracks, batizada com o mesmo nome do disco lançado no ano passado, após um hiato de mais de 15 anos sem discos completos. Em 2000, os quatro foram os responsáveis pela ambientação sonora da Expo 2000, em Hannover, na Alemanha. O álbum e o show atuais são espécies de continuação do single Tour de France (1983), cuja marcação de batida é a respiração de um ciclista. Seu lançamento mundial coincidiu com o início da centésima edição, em 2003, da maior e mais famosa corrida de bicicletas do mundo.
O som dos sintetizadores e baterias eletrônicas é minimalista e hipnótico. Em uma primeira audição, ainda no ano de lançamento do primeiro álbum (Kraftwerk 1, de 1970), produtores e músicos de todo o mundo sabiam do nascimento de uma das mais influentes sonoridades da música pop. Um número extraordinário de artistas bebeu na fonte robótica dos alemães nos anos e décadas seguintes. Ainda nos anos 70, vieram David Bowie e Joy Division. Nos anos 80, New Order, Depeche Mode, Human League e Soft Cell lideraram um movimento de seguidores de Schneider e Hütter, batizado de tecnopop. Antes ainda do fim da década, surgiram o house e o techno, em Chicago e Detroit (EUA), e cunharam, definitivamente, o termo música eletrônica. Isso sem deixar de lado os artistas de hip-hop e os que assumem mais de um estilo, como Afrika Bambaataa, Beck, Primal Scream, Jay Z, Moby e Chemical Brothers. Todos eles têm pelo menos um disco do Kraftwerk em casa.
A partir do disco Computer World, de 1981, os integrantes do Kraftwerk preferiram ficar quietos, em seu estúdio, experimentando novas sonoridades e bolando cenários e efeitos visuais que combinassem com suas músicas. Mesmo assim, suas raras apresentações são a conexão ideal entre coração humano e mente de máquina.
Na época em que foram compostas, as primeiras músicas do Kraftwerk necessitavam de menos tecnologia que um telefone celular. E ainda hoje, são tão modernas quanto um processador de última geração. E nunca virarão sucata tecnológica.
SERVIÇO
Kraftwerk – Hoje, às 21h, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Ingressos a R$ 240, à venda na bilheteria do Teatro Nacional. Estudantes, maiores de 65 anos e doadores de um quilo de alimento não-perecível pagam meia-entrada.
DISCOGRAFIA
Kraftwerk 1 (1971)
Kraftwerk 2 (1972)
Ralf und Florian (1973)
Autobahn (1974)
Radio-Activity (1975)
Trans-Europe Express (1977)
The Man-Machine (1978)
Computer World (1981)
Electric Cafe (1986)
Tour de France
Soundtracks (2003)