Antes ele era um líder de gangues, vivia nas ruas. Hoje é pai, trabalhador e palestrante. Carlos Washington Chagas Correa relata sua experiência nas ruas do Distrito Federal no livro Carlos & Astro, uma Vida, Dois Mundos. O lançamento será hoje, às 19h, no foyer da Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.
Carlos teve uma adolescência marcada pelo mundo das gangues. Envolveu-se com grupos da Ceilândia que encontraram no spray uma maneira de se destacar. Inventaram codinomes e ai surgiram os pichadores. Carlos tornou-se então Astro. Com o apelido, liderou grandes gangues, que vagavam pelas noites pichando e roubando.
Astro falava que ia para a escola e saía para pichar, passava noites em pontos de ônibus e igrejas. Memoriais, muros, prédios eram alguns dos alvos do grupo. Esta vida durou até os 19 anos, quando foi para o Exército. “Foi então que me afastei das ruas, me relacionei com uma pessoa e ela engravidou. Voltei a ser o Carlos, precisava ter responsabilidades”, lembra. Segundo ele, o fato de ser pai o acordou para a vida.
De quando entrou para as gangues até hoje, Astro já perdeu 51 amigos, que morreram assassinados, envolvidos com drogas e confusões. “A vida na rua geralmente começa aos 12 anos e vai até uns 22, mas isso, só se não morrerem antes, como aconteceu com muitos amigos”, lamenta.
Aos 27 anos, hoje ele é pai de dois filhos e concluiu o Ensino Médio. Já trabalhou como gerente de restaurantes e hoje ministra palestras contando sua experiência de como conseguiu sair do mundo da marginalidade.
Em 2001, entrou para o programa Picasso Não Pichava e encontrou a chance de trilhar um novo caminho. “Não existia mais o Astro. Mas vi que tinha que fazer alguma coisa. Foi então que percebi a importância desse programa social, que existe desde 1999”, afirma. “Falar da minha história é uma maneira de ajudar os jovens que estão nas ruas e também as famílias a ter garra. É possível mudar, basta correr atrás, ter perseverança e pensar positivo”, diz.
O projeto Picasso Não Pichava tem por objetivo formar artistas, em vez de deixar os pichadores nas ruas, poluindo o visual da cidade. “Pode ser feita uma coisa boa com o spray. Mas é preciso ter consciência”, explica. Carlos quer dividir sua experiência com outras pessoas e colocou algumas histórias no livro.
Para ele, o livro é um alerta para os jovens que se envolvem com crimes e se tornam reféns das drogas e das gangues rivais. “Me sinto um pouco responsável pelas mortes dos meus amigos. Quero mostrar que tem solução, que nem tudo está perdido. É uma maneira de alertar a sociedade inteira, para evitar que mais jovens se envolvam com as gangues e morram”, afirma.