Quem anda passando mal com o calor dos últimos dias deve acreditar: poderia ser pior. É o que acontece, por exemplo, com a equipe que filma Olga, do diretor Jayme Monjardim, cujas locações têm sido feitas em Bangu, um dos bairros mais quentes do Rio de Janeiro.
Gravar cenas em um lugar quente como a boca de um vulcão ainda não é o pior: no caso do filme, atores e figurantes têm tido de enfrentar as gravações vestidos com pesadas roupas de frio – as mais adequadas, aliás, para um cenário onde neva por toda parte. Como o ambiente deve reproduzir locais da Alemanha onde se passa a parte final da história da mulher de Luiz Carlos Prestes, entregue aos nazistas por Getúlio Vargas, foi preciso adaptar.
A neve, claro, é artificial, sendo o efeito visual dos flocos brancos na calçada resultado de muito sal grosso espalhado pelo ambiente. O resto compõe bem: a velha fábrica de tecidos de Bangu se parece com o o campo de concentração de Havensbruck, para onde Olga Benário foi levada.
Máquinas de neve sobre os telhados ajudam a dar o tom, complementado pelas presenças de cães da raça Pastor Alemão, oficiais nazistas com pesados casacos de lã e prisioneiras magras e abatidas, todas de cabeça raspada. Milene Toscana, que no filme faz papel de Hanna, conta que sua avó chorou muito quando a viu sem os cabelos.
Jayme Monjardim, mesmo que pudesse, não iria à Alemanha para reconstituir o cenário natural. “É óbvio que adoraria ter mil figurantes, em vez de cem, mas o grande mérito do cinema nacional é o improviso”, atenta.
Nas cenas em que Olga (Camila Morgado) chega ao campo de concentração, Monjardim teve 178 figurantes, entre crianças, homens e mulheres. Em outra seqüência, na qual judias são desinfetadas antes de entrarem na câmara de gás, o cenário era devastador: cabelos pendurados numa espécie de varal e cachos jogados pelo chão.
Conhecido por ser metódico, Monjardim cuidou pessoalmente de aspectos da produção. Chegou às 4h30m ao set de filmagens para fazer a marcação dos atores e figurantes e posicionou as câmeras, as motos e o ônibus cenográficos: “Sou muito detalhista e cuidadoso com cenário e roupas e tenho a tranqüilidade de olhar tudo antes de rodar. Cinema é artesanato”.
Algumas cenas foram rodadas em alemão, já que quase todos os figurantes conhecem o idioma. Camila Morgado, desde que confirmou sua partipação como protagonista da história, também estuda o idioma com afinco. Tudo ajuda a reconstituir o clima carregado que marcou, na vida real, cada cantinho dessa história dramática.
A máquina de gelo artificial produz neve com um material sintético de cheiro adocicado. Já a fumaça de fuligem foi feita com carvão em brasa e espalhado com a ajuda de um circulador de ar. Na fila, a bandeira com o símbolo do nazismo parece pairar, como carma de castigo, por sobre as cabeças das inscritas na tortura do campo.