Martinho da Vila já teve mulheres de todas as cores, de várias idades e de muitos amores. Mas nunca teve uma francesa. Seria fácil. A moça ensinaria, por exemplo, que Devagar Devagarinho é c’est lentement, c’est lentement. Ajudaria o amado a fazer o biquinho na hora certa para “canta, canta minha gente, deixa a tristeza pra lá” virar chantes, chantes peuple mien, laisses la tristese lá bas.
E Martinho da Vila se tornaria facilmente Monsieur Martinhô de Ville. O sambista queria porque queria cantar em francês. Sua vontade, que já levava 20 anos, se realiza no álbum Conexões, com seus clássicos entoados em uma mistura franco-portuguesa.
Mulheres vira Femmes, Disritmia e Ex-Amor foram unidas em Dysrythmie e Ex Amour. O Pequeno Burguês fica vertida para Le Petit Borgoese. Tudo para agradar ao público europeu que, diz o próprio Martinho, clamava para entender o que ele cantava. “Eu andava muito pela França nos anos 80. Sentia que os franceses queriam entender minha música.” O sambista foi estudar o idioma novo e encontrou uma muralha.
“Falar francês é como tocar violão. Todo mundo aprende até certo ponto.” O fato de ter sua origem no latim, como o português, não amenizou as coisas para ele. “É muito difícil. O vocabulário é muito grande.”
Fazer sua conhecida Boemia virar La Boehme foi o mais difícil. “A letra é muito longa. Foi complicado encaixar os versos.” O sambista contou com a ajuda de um professor de francês, o congolês Tex Tekadiomona, que acompanhou as gravações.
O álbum tem ainda faixas inéditas como Ó Nega e Como Você. E algo de bizarro soa em Pra Tudo Se Acabar Na Quarta-Feira, um dueto para não se levar a sério entre Martinho e a atriz Denise Fraga.