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Marlene não perde a pose

Arquivo Geral

23/11/2004 0h00

Quem foi rei não perde a majestade, tanto mais se estiver celebrando, com vigor renovado, mais uma idade nova após ter visto o mundo mudar sucessivas vezes. Rainha do Rádio no final dos anos 1940 e princesa essencial de muitos outros carnavais, a cantora Marlene comemora hoje 80 anos, mas idade é fato sobre o qual não há espaço para comentar em sua vida.

Em rápido bate-papo por telefone com o Jornal de Brasília – ela fazia as unhas e preparava-se para sair –, Marlene se mostrou com a mesma garra que a distinguiu, tantas décadas atrás, quando emprestou sua bela voz para dar voz aos oprimidos. Músicas como Lata d´Água, Patinete no Morro e Sapato de Pobre, que são dessa leva, até hoje têm brilho único no cancioneiro popular do Brasil.

Eram os tempos em que o rádio atuava como o veículo de comunicação e entretenimento. Revelava talentos como Marlene e Emilinha Borba (rivalidade histórica), entre outros que, em comum, tinham uma característica ausente no esquema atual de “lançamentos de ídolos”: a competência a toda prova para se apresentar em auditório e estúdio. Bons tempos.

Mas Marlene é cidadã do momento. Veste a camisa do tempo que está vivendo e, se este oferece menos qualidade do que o passado, bola para a frente. Nem mesmo uma profunda saudade do rádio que nunca mais será daquele jeito ela parece ter. “Não sinto falta, porque rádio hoje virou toca-discos”, espeta. “E toca-discos, eu tenho em casa”.

Os estúdios, aliás, há tempos não são brindados com a presença de Marlene. Um dos últimos lançamentos, Estrela da Vida, já tem cinco anos. Onde andam as boas gravadoras? “Não há mais, porque essa venda de discos piratas prejudicou muito o movimento”, avalia. “Cada um faz por si, mas eu, com sinceridade, não estou lutando contra a pirataria. Estou na minha”.

Sempre foi assim. No cotidiano, a Marlene que se desdobra em multimulher quando encara um palco – ela é uma genuína intérprete sem retoques – não é de correr atrás. “Tenho feito shows quando me convidam”, resume. “Aliás, acho que Brasília me esqueceu há tempos. É só me convidar que eu vou, com o maior prazer”.

Além de visitar aqui seu amigo de longa data, o artista plástico Zello Visconti, ela hoje teria em Brasília outra pessoa com quem conversar, cara a cara: o ministro da Cultura, Gilberto Gil. “Não escondo meus sentimentos e não gosto de tapeação, e este ministro, até agora, não fez absolutamente nada”, dardeja de pronto quando o assunto é programação cultural e incentivo à música.

A crítica tem a ver com o panorama que ela vê, hoje, no Rio de Janeiro. “Estão abandonando a cidade que é a capital da cultura”, lamenta. “Até as televisões estão indo todas para São Paulo. Tenho visto muito pouco interesse no Rio de Janeiro”.

Esta é a razão pela qual, acentua Marlene, sua agenda hoje em dia não anda muito disputada. “Noutros governos, havia muito mais coisas para se fazer”, diz.

Isso não tira seu prazer de acompanhar o que tem sido feito no panorama atual da música. Pode apostar que o “filtro” de Marlene, antenado nas criações que tenham conteúdo, não aprova qualquer coisa. Quem viveu o tempo dos auditórios não se deixa enganar.

“Eu me interesso muito por músicas boas, mas infelizmente os grandes compositores não estão produzindo muito ultimamente”, aponta. “Gosto de bons compositores, não dessa lambança que está aparecendo por aí, tudo é só rebolado… E não tenho nada contra rebolado, por favor! Eu mesma já rebolei muito no palco…”.

Nem precisava situar. Mesmo quem não viveu os tempos em que só chegava ao estrelato quem tivesse talento real – “As gerações que têm vindo acabam não sabendo de muita coisa”, lembra – seria capaz de perceber o abismo existente entre o remelexo de Marlene e o frenesi pélvico dos artistas fabricados que juram estar cantando.

Mas Marlene não se encontra engessada em algum lugar do passado. Em qualquer lugar onde se apresente, por exemplo, cantará Como Uma Onda, de Lulu Santos, música que leva na bagagem e que interpreta com todas as letras. Se fosse gravar, apuraria a busca. “Ouviria todo mundo antes de escolher um repertório”, conta. “A questão é que não tem aparecido nada”.

Nesse meio tempo, gosta mesmo é de ficar em casa, um confortável apartamento no tradicional bairro de Copacabana, Rio, convivendo com sete gatos, um cachorro e um papagaio. Ouve músicas, assiste a algumas novelas – presta a maior atenção nas trilhas sonoras – e, vez por outra, faz um show.

“Eu quero é botar para fora minha alegria”, resume, mesmo deixando escapar que, às vezes, se sente esquecida. O lugar que lhe cabe no trono, nem a banalização da música tem como fazer desaparecer.

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    23/11/2004 0h00

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    Em rápido bate-papo por telefone com o Jornal de Brasília – ela fazia as unhas e preparava-se para sair –, Marlene se mostrou com a mesma garra que a distinguiu, tantas décadas atrás, quando emprestou sua bela voz para dar voz aos oprimidos. Músicas como Lata d´Água, Patinete no Morro e Sapato de Pobre, que são dessa leva, até hoje têm brilho único no cancioneiro popular do Brasil.

    Eram os tempos em que o rádio atuava como o veículo de comunicação e entretenimento. Revelava talentos como Marlene e Emilinha Borba (rivalidade histórica), entre outros que, em comum, tinham uma característica ausente no esquema atual de “lançamentos de ídolos”: a competência a toda prova para se apresentar em auditório e estúdio. Bons tempos.

    Mas Marlene é cidadã do momento. Veste a camisa do tempo que está vivendo e, se este oferece menos qualidade do que o passado, bola para a frente. Nem mesmo uma profunda saudade do rádio que nunca mais será daquele jeito ela parece ter. “Não sinto falta, porque rádio hoje virou toca-discos”, espeta. “E toca-discos, eu tenho em casa”.

    Os estúdios, aliás, há tempos não são brindados com a presença de Marlene. Um dos últimos lançamentos, Estrela da Vida, já tem cinco anos. Onde andam as boas gravadoras? “Não há mais, porque essa venda de discos piratas prejudicou muito o movimento”, avalia. “Cada um faz por si, mas eu, com sinceridade, não estou lutando contra a pirataria. Estou na minha”.

    Sempre foi assim. No cotidiano, a Marlene que se desdobra em multimulher quando encara um palco – ela é uma genuína intérprete sem retoques – não é de correr atrás. “Tenho feito shows quando me convidam”, resume. “Aliás, acho que Brasília me esqueceu há tempos. É só me convidar que eu vou, com o maior prazer”.

    Além de visitar aqui seu amigo de longa data, o artista plástico Zello Visconti, ela hoje teria em Brasília outra pessoa com quem conversar, cara a cara: o ministro da Cultura, Gilberto Gil. “Não escondo meus sentimentos e não gosto de tapeação, e este ministro, até agora, não fez absolutamente nada”, dardeja de pronto quando o assunto é programação cultural e incentivo à música.

    A crítica tem a ver com o panorama que ela vê, hoje, no Rio de Janeiro. “Estão abandonando a cidade que é a capital da cultura”, lamenta. “Até as televisões estão indo todas para São Paulo. Tenho visto muito pouco interesse no Rio de Janeiro”.

    Esta é a razão pela qual, acentua Marlene, sua agenda hoje em dia não anda muito disputada. “Noutros governos, havia muito mais coisas para se fazer”, diz.

    Isso não tira seu prazer de acompanhar o que tem sido feito no panorama atual da música. Pode apostar que o “filtro” de Marlene, antenado nas criações que tenham conteúdo, não aprova qualquer coisa. Quem viveu o tempo dos auditórios não se deixa enganar.

    “Eu me interesso muito por músicas boas, mas infelizmente os grandes compositores não estão produzindo muito ultimamente”, aponta. “Gosto de bons compositores, não dessa lambança que está aparecendo por aí, tudo é só rebolado… E não tenho nada contra rebolado, por favor! Eu mesma já rebolei muito no palco…”.

    Nem precisava situar. Mesmo quem não viveu os tempos em que só chegava ao estrelato quem tivesse talento real – “As gerações que têm vindo acabam não sabendo de muita coisa”, lembra – seria capaz de perceber o abismo existente entre o remelexo de Marlene e o frenesi pélvico dos artistas fabricados que juram estar cantando.

    Mas Marlene não se encontra engessada em algum lugar do passado. Em qualquer lugar onde se apresente, por exemplo, cantará Como Uma Onda, de Lulu Santos, música que leva na bagagem e que interpreta com todas as letras. Se fosse gravar, apuraria a busca. “Ouviria todo mundo antes de escolher um repertório”, conta. “A questão é que não tem aparecido nada”.

    Nesse meio tempo, gosta mesmo é de ficar em casa, um confortável apartamento no tradicional bairro de Copacabana, Rio, convivendo com sete gatos, um cachorro e um papagaio. Ouve músicas, assiste a algumas novelas – presta a maior atenção nas trilhas sonoras – e, vez por outra, faz um show.

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