A cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, se cobrirá de glamour para contar, em película, a história da banda que a pôs no mapa cultural do País. O sucesso retumbante dos Mamonas Assassinas vai, finalmente, virar filme. O projeto de Mamonas, o Filme, que está nas mãos do experiente produtor Cláudio Kahns (de Marvada Carne), é ambicioso. Isso para fazer jus ao sucesso que a banda alcançou há dez anos – foram 2,3 milhões de cópias vendidas do disco de estréia, Mamonas Assassinas (1995).
Aqueles meninos vestidos de Chapolim foram uma febre impossível
de esquecer. Com um vocalista carismático e bonito – o Dinho –, embalaram o final do ano de 95 com suas músicas irreverentes.
Grupo que saiu da periferia e venceu pela persistência, fez o brasileiro rir de si mesmo – do “crediário nas Casas Bahia”, do inglês
“veri gud” e das namoradas “pitchulas”. Gosto duvidoso para alguns, mas delírio para as massas.
O visual colorido e as letras do tipo que grudam na cabeça conquistaram as crianças de imediato. Hoje, essa turma é adolescente e público-alvo do filme, que poderá captar até R$ 5, 5 milhões em patrocínio pela Lei do Audiovisual. “Quem sabe as Casas Bahia não aceitam nos patrocinar…”, brinca Kahns, da Tatu Filmes.
Concurso Os produtores planejam um concurso para a escolha dos protagonistas – papéis de Dinho, Bento Hiroto (guitarra), Júlio Rasec (teclados), Sérgio (bateria) e Samuel Reoli (baixo). “Faremos isso na TV, em rede nacional”, adianta Khans. “Estamos em negociação com o Gugu e o Faustão”, revela. Deste concurso também sairão as bandas que tocarão no filme. “Assim como eles abriam shows de outras bandas antes da fama, depois, outras bandas abriam os shows deles”, explica a co-produtora Luna Alkalay, da Cameraquatro Produções. “Vamos procurar estas bandas que, no filme, vão tocar antes deles.”
Também estão previstas oficinas de interpretação, maquiagem, figurino e das diversas etapas do processo cinematográfico, que serão feitas em Guarulhos, numa parceria com a prefeitura. “Queremos convocar a população de Guarulhos para o filme. Estamos procurando o local para as oficinas”, conta Luna. “Os três melhores de cada oficina vão estagiar conosco no filme, serão assistentes”, completa Kahns.
Diretor jovem O longa-metragem terá direção de Maurício Eça. Jovem, Maurício é bastante conhecido – e premiado – principalmente pela direção de videoclipes. É dele o Diário de um Detento, do Racionais MCs. Hoje Maurício é disputado pelas estrelas do universo pop jovem nacional – fez clipes para Pitty (Máscara e
Admirável Chip Novo) e KLB (o novo Carolina), por exemplo. “Fizemos questão de convidar um diretor jovem acostumado à linguagem musical”, explica Kahns. Para a fotografia, por outro
lado, o produtor conversa com um “profissional muito experiente”.
O nome por enquanto, é mantido em segredo.
A idéia de chamar um fotógrafo veterano, detalha Kahns, tem o objetivo retratar uma Guarulhos bonita. “Queremos que a cidade apareça no filme de uma maneira bacana. Da mesma forma que você vê o tempo todo lugares periféricos que aparecem bonitos, mas sem perder suas características, em filmes estrangeiros. Vamos fazer um belíssimo filme”, diz. “Você vai lá e vê que, realmente, o mais importante que aconteceu foi o Mamonas. Eles trouxeram uma perspectiva positiva para cidade, que muitas vezes é lembrada apenas por causa do aeroporto internacional”, sublinha Luna.
Macunaímicos A linha de partida para o roteiro é o livro Blá, Blá, Blá – A Biografia Autorizada dos Mamonas Assassinas (L&PM), de Eduardo Bueno, o Peninha. Escrito em apenas 18 dias e lançado em junho de 1996, o livro vendeu mais de cem mil exemplares. E deve ser relançado em breve, com o gancho do filme e dos dez anos de morte do grupo – num acidente de avião na noite de 2 de março de 96, quando voltavam de um show para dez mil pessoas no Estádio Mané Garrincha, em Brasília.
“Já escrevi a primeira frase deste livro pensando num filme”, relembra Peninha. “Quando aceitei escrevê-lo foi apenas pela grana, fui um gigolô das palavras. E esperava me envolver o mínimo possível. Na época, mais grave do que odiar o grupo, eu o desprezava. Mas, com um preconceito típico de jornalista de cultura, me deparei com uma história impressionante, de um Brasil real.”
Este Brasil real dos Mamonas é, na opinião de Peninha, a própria periferia de São Paulo, uma espécie de síntese do País. “Eles eram 100% periferia. E, ao contrário dos rappers americanos, que nasceram na periferia e desenvolveram o ódio, desenvolveram o escárnio. Tiraram sarro da gente, foram macunaímicos.”