Os olhos não conseguem lacrimejar e a sensação de areia nos olhos é intensa, a boca não produz saliva e a língua tende a ficar rachada. Estes são os sintomas mais comuns de uma doença pouco conhecida, de nome estranho e que só foi identificada pela medicina na década de 30 do século passado: a síndrome de Sjögren (pronuncia-se chôgrein).
O nome da enfermidade é uma homenagem ao oftalmologista sueco, Larsson Sjögren, que descreveu oficialmente os primeiros casos do mal. De lá para cá, a medicina vem tentando entender melhor a doença que, só nos Estados Unidos, afeta quatro milhões de pessoas.
Stella Oliveira é portadora da síndrome de Sjögren. Desde que ela era pequena, a doença mandava sinais: “Desde criança tinha os olhos muito vermelhos. Usei todos os colírios que existiam e não resolvia. E aí começaram a parecer uma conjuntivite atrás da outra e blefarites (inflamações nas pálpebras. Eu acordava com o olho grudado”, lembra.
calvárioO calvário de Stella começou ali. “Passei por vários especialistas para saber o que eu tinha. Durante cinco anos fui a oftalmologistas que achavam que eu tinha alergia, e tome corticóide em cima de mim. E aquilo nada tinha ver com alergia”, conta.
A portadora, como a maioria das vítimas desse mal, custou a descobrir o seu problema. “Os sintomas da doença parecem com o de outras. Os mais comuns como boca e olhos secos são sentidos também pelas pessoas em Brasília, por exemplo, na época da seca. Por isso, os pacientes procuram dentistas e oftalmologistas”, explica Leopoldo Luiz dos Santos Neto, chefe do Centro de Clínica Médica do Hospital da Universitária de Brasília – HUB.
Stella percebeu que tinha uma doença bem diferente 26 anos depois do aparecimento dos primeiros sintomas. Nesse meio tempo ela viveu os efeitos peversos da doença. “Engoli sem perceber alguns dentes, porque a síndrome faz com que eles fiquem muito fracos. Eles se desmancham”, conta.
A portadora teve a sua qualidade de vida muito afetada. Teve problema sérios, inclusive, no emprego. “Eu trabalhava na TV Globo, e como a doença afetou também meu sistema nervoso, não sabia mais fazer minhas planilhas. Os colegas tinham que me passar a cola. Eu fiquei sem chão, eu me desconhecia, não conseguia nem vestir um vestido direito”, recorda.
Sistema nervoso afetado, cálculos renais, perda de dentes, fadigas crônicas, dores e inchaço nas juntas, secura na vagina, Stella foi acumulando as conseqüências do estado avançado da síndrome de Sjögren. Ela aprendeu tanto com a doença que resolveu criar uma organização, a Lágrima Brasil, da qual é presidente, para ajudar aos portadores a conhecê-la melhor.