Em raras tentativas – Batman e Super-Homem foram algumas delas –, a DC Comics conseguiu ser superior à Marvel Enterprises ao reproduzir seus quadrinhos nos cinemas. Com as imbatíveis franquias de X-Men e Homem-Aranha (da Marvel), coube à DC amargar o fracasso de Mulher-Gato (vencedor do Framboesa de Ouro de pior filme, roteiro, diretor e atriz, para Halle Berry), no ano passado. Porém, ninguém, no universo dos quadrinhos, conseguiu explorar melhor do que a DC o braço das HQs de terror. A editora resolveu investir neste filão numa parceria com a Warner Bros. e alcançou prematuro sucesso com Constantine, adaptação cinematográfica do gibi Hellblazer (que arrecadou US$ 60,5 milhões em seu primeiro fim de semana de exibição nos EUA).
Neste ramo da indústria dos quadrinhos de super-heróis (sem fantasias alegóricas ou alter-ego e regido pelo ocultismo, com tramas mais adultas), o personagem criado por Alan Moore (da Liga Extraordinária), John Constantine, é rei. Mais ainda em sua encarnação nos cinemas, onde é vivido por Keanu Reeves (eternizado como Neo, na trilogia de Matrix).
Há uma relação óbvia entre os personagens de Neo e Constantine. Primeiro, devido aos efeitos especiais e ao rosto de Reeves estampado na tela. Ambos são poderosos, incumbidos de salvar o mundo com um figurino básico, preto-e-branco. Contudo, Constantine não tem jeito de bom moço. É um vigilante paranormal da fronteira que separa a terra do inferno (o que pode, forçando a barra, ser comparado com o paralelo da cidade Zion e o mundo virtual de Matrix).
Fumante inveterado, alcoólatra e ex-líder de uma banda de punk-rock de NewCastle (este último, somente na versão dos quadrinhos), John é um bruxo que conheceu o inferno por dois minutos, após um exorcismo mal-executado. Nos cinemas, o personagem, cuja primeira aparição ocorreu nas páginas dos gibis Monstro do Pântano, nasce norte-americano. Os pubs londrinos são substituídos pelo cenário de uma caótica Los Angeles, mas o personagem mantém as mesmas características: o aparente cansaço de um insone e a vida mesquinha que leva como detetive.
O filme, de Francis Lawrence, com estréia hoje no Brasil, gira em torno das investigações sobre o assassinato da irmã gêmea da policial Ângela (Rachel Weisz). Cética, a detetive descarta a ajuda do mago, mas logo se vê numa guerra entre anjos e demônios. Essa é a hora de John e sua metralhadora em forma de cruz intervirem.