Seja em prosa, seja em verso, Ferreira Gullar emociona com sua escrita precisa e fantasiosa. De volta à infância, aos Lençóis Maranhenses, na década de 1930, sua literatura encontra as memórias do pequeno José Ribamar Ferreira (nome de batismo do autor) no livro O Touro Encantado. Na nova obra, Gullar revisita as histórias de ninar do seu período juvenil e as lendas da região (algumas, como O Dente, até macabras).
O livro traz uma compilação de 11 curtíssimas narrativas infanto-juvenis que reúnem episódios marcantes da infância do escritor. À elas, porém, Gullar fantasiou à vontade e elaborou suas próprias versões às fábulas que ouvira, uma vez criança.
Sensibilidade poética nunca faltou a Ferreira Gullar, muito menos nas divagações saudosistas de O Touro Encantado. No conto que intitula a obra, especialmente, Gullar remete à lenda em torno do rei de Portugal Dom Sebastião. Desaparecido no norte da África no século 16, virou figura mitológica na região de Lençóis do Maranhão, aonde, acredita-se, Dom tenha reencarnado como um touro negro.
Em O Touro Encantado Gullar se arma pela única vez no livro da narrativa em verso: “Se o povo matar o touro,/ a encantação se desfaz;/ não é o rei mas o povo/ que afinal se desencanta,/ não é o rei mas o povo/ que se liberta e levanta/como seu próprio senhor:/que o povo é o rei encantado/no touro que ele inventou.”
Noutros – ainda belos – momentos, o poeta maranhense emociona com Marquinhos. Por uma ótica de sonho, lembra o triste episódio da morte de seu filho em 1990 de forma discretamente dramática, com final feliz. “Esse não é da minha infância, mas da dele, que infelizmente não está mais aqui para lê-la e, se estrivesse não a leria, porque ela não teria sido escrita”, anuncia Gullar na contracapa do livro.
Esta é a segunda vez que Ferreira Gullar lança um livro de memórias. No primeiro, em 1998, ele apresenta suas lembranças do período da ditadura, em que o autor descreve suas experiências durante os amargos anos de exílio na antiga União Soviética, Chile, Peru e Argentina.