Os músicos brasilienses estão ocupando cada vez mais lugar de destaque no exterior. Um exemplo é a homenagem que o maestro Jorge Antunes receberá, hoje, na França. Ele embarcou no último dia 15 para o Festival Futura, na cidade de Crest, onde apresenta o Concert-Portrait Jorge Antunes.
Desde 1993, o festival é o mais tradicional do mundo em música eletroacústica. Este ano, está sendo realizado do último dia 16 até 27 próximo. Jorge Antunes participou do concerto de abertura, quando foram executadas obras dele, e dos franceses Ivo Malec e Pierre Schaeffer (criador da música eletroacústica) – já falecidos. “Eu fui o precursor da música eletroacústica na América Latina, eles me escolheram pelo reconhecimento da música erudita produzida no Brasil, ao lado de nomes internacionais. É uma felicidade, uma consagração do meu trabalho”, afirma o maestro, que apresentou Pequena Peça para mi Bequadro e Harmônicos, sua primeira composição produzida aos 19 anos, em 1961.
As homenagens continuam hoje, durante o Concert-Portrait Jorge Antunes, quando serão apresentadas oito obras do compositor brasileiro: Auto-retrato Sobre Paisaje Porteño (1970); Interlude n°1 pour Olga (1993); Hombres Tristes y sin Titulos Rodeados de Pajaros en Noche Amarilla, Violeta y Naranja (1998); Ballade Dure (1995); Vitraux MCMXCV (1995); Big Bang (2001); Cuicanon Cuicantorum (2001) e Anaphore Symphocéanique (2004). Esta última será apresentada em estréia mundial.
ConcretaA música eletroacústica é aquela produzida em estúdio, antigamente chamada de música concreta ou eletrônica. Quando é levada para o teatro não tem intérprete no palco, chamada de orquestra de alto-falante. “Lá estarão mais de 20 caixas de som no teatro, como se fosse uma orquestra. As caixas fazem papel dos instrumentos”, explica o maestro.
Antunes já teve obras apresentadas em outras edições do Festival Futura, além dos concertos que faz no exterior. “A música erudita é muito mais valorizada fora do Brasil”, acredita.
O festival não está inserido na programação do Ano do Brasil na França. De acordo com Antunes, ele encaminhou um projeto para o Ministério da Cultura, que não foi aceito. “Eles só quiseram mostrar a música popular, que atrai multidões”, reclama o maestro. “As pessoas do festival não estão fazendo essa homenagem para mim, mas para a música erudita do Brasil, por mim, que sou precursor do estilo na América Latina”, afirma, completando que o Festival Futura terá ainda obras dos brasileiros Rodolfo Caesar, Augusto Mannis e Denise Garcia.
Vergonha Jorge Antunes procura deixar bem claro que a ida dele à França não tem relação nenhuma com o Ano do Brasil na França. “Não quero meu nome vinculado à péssima política cultural que temos e também quero resguardar-me da vergonha nacional de corrupção”, justifica.
Aos 63 anos, Antunes soma mais de 40 anos de experiência na música erudita. O primeiro contato profissional foi aos 18 anos, quando começou a estudar violino, composição musical e regência na antiga Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. A primeira obra eletroacústica foi criada em 1961.
Depois, deu aulas de música no extinto Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Envolvido com política estudantil, foi cassado durante a ditadura militar, mudando-se do Brasil. Entre 1969 e 1973, morou em Buenos Aires, na Holanda e na França, sempre estudanto música. Em 1973, fez doutorado em Estética Musical na Sorbonne Universidade de Paris VIII, em Paris, na França.
Surgiu então o convite do amigo Orlando Leite, que na época era chefe do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB). Em junho de 1973, Antunes mudou-se para Brasília, onde reside até hoje. Além das aulas na UnB, participa de concertos no Brasil e no exterior. “Com essa homenagem vejo o reconhecimento de anos de trabalho”, diz o maestro.