Depois de B. Negão, que lançou no ano passado um dos melhores álbuns da nova cena musical brasileira, o explosivo Enxugando o Gelo, chegou a vez de um brother seu e também integrante – ao lado de Marcelo D2 – do sumido grupo Planet Hemp, mostrar com quantas idéias se faz um belo trabalho. O homem se chama Black Alien e o petardo, anotem o nome, Babylon by Gus, Volume I – o Ano do Macaco.
Fazia tempo, desde o já citado debut de B. Negão, o rap/rock brasileiro não se mostrava tão criativo. Diferentemente da escola de Pavilhão 9 e do até então onipresente Racionais MC, que aposta numa poesia e som mais crus, o inspirado CD de Alien navega impávido no mar da sofisticação.
O rapper Black Alien, contou para isso com a ajuda do produtor de Alexandre Basa, que já havia trabalhado com o pessoal do Instituto (uma reunião de vários artistas em torno de algum projeto artístico-cultural) paulista reconhecido pelo bom gosto e elaboração musical.
Os dois juntos, mais do que música, criam climas. Black Alien vem com seu arsenal intuitivo que mistura ragamuffin com rap e pop e rock, com letras afiadas e conseqüentes, enquanto Basa aperta botões, lança idéias e toca quase todos os instrumentos presentes em Babylon By Gus, fabricando um recheio moderno e cheio de referências para o CD.
A influência do raggamuffin e do reggae, diluída nos mais de dez anos de carreira do artista estão presentes, concentradas e cheias de gás, nas ótimas Mister Niterói, que abre o disco, e em Primeiro de Dezembro. A veia mais pop e rock salta, por sua vez, na radiofônica Caminhos do Destino, uma das melhores do disco.
IncisivaO rap mais puro e tradicional, inclusive na letra hardcore, que fala de bandido e mocinho, polícia e ladrão, marcam ponto no trabalho, como na incisiva Estilo do Gueto. Mas até na crueza, Black Alien consegue imprimir uma melodia marcante e bem-estruturada, no contrapé das rimas secas.
Nos momentos mais suaves do disco, Alien e Basa escoram-se na sensualidade para reforçar um discurso amoroso e sem medo de ser feliz, com declarações apaixonadas e refrões fáceis, como na explicitamente romântica Como eu te Quero.
A força musical do CD encontra equivalência nas letras do rapper carioca. Black Alien traduz o universo da cidade grande, com suas mazelas, engodos e armadilhas, em poesias cortantes e com boas surpresas poéticas. Longe das rimas fáceis, Alien sobra em músicas como From Hell do Céu, onde discursa ácido: “Observe a ordem natural das coisas em declive/inclusive eu tive lá e não te vi lá/ Frente a frente, lado a lado, tête-à-tête com os mestres das marionetes/ Vê se assimila quem orquestra, quem adestra, quem tem a chave-mestra/quem dilata as suas pupilas/quem nos aniquila”.
Mais do que um trabalho de hip hop, este é um disco contemporâneo e cheio de vigor. Música para começo de século. Se 2004 é o ano do macaco, no horóscopo chinês, podemos dizer com Babylon by Gus, que este é também o ano de Black Alien. É ouvir o CD com cuidado para crer.