Introdução cansativa, seqüências e epílogo idem. Assim se esparrama Subterrâneos, filme do diretor José Eduardo Belmonte que abriu a programação do 36º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Aí talvez resida o trunfo desse longa: faz lembrar Maria Adelaide Amaral, autora da máxima segundo a qual “teatro não é bombom; tem de incomodar”.
Antes de tudo, é importante atentar ao universo que Subterrâneos se propõe explorar: o Conic, que concentra muita história de um mundo marginal que nem de longe é associado, na mídia, à imagem de Brasília. Mas faz parte da história da cidade – o suficiente para que um mergulho rápido em seus labirintos dê uma noção do universo que alguns insistem em negar.
Subterrâneos mostra esse caleidoscópio que a tantos pode soar desagradável, por situar, lado a lado, a decadência e a prosperidade de sortidos e sofridos tipos humanos. É um filme com gosto de ressaca, tempero que, de diferentes maneiras, perpassa o perfil de todos os personagens.
Sob esta ótica do caos, desenvolve-se uma história com pouco pé e cabeça, exatamente como o sentido da vida que assinala a fauna e a flora do famigerado point onde convivem o sacro e o profano em todas as tonalidades – a fina flor da baixa-laia.
Somente com a abertura para essa realidade é que se pode compreender o amadorismo proposital dos enquadramentos, que cansam os olhos, e o que seria a falta de um fio condutor. O que acontece com Ângela (Cibele Amaral), que rumo tomará a crente (Gabriele Lopes) e que raios afinal pretende o italiáno Giacomo (Nicola Siri), tudo isso fica em aberto.
Faz sentido: assim como o personagem central da trama, vivido por Murilo Grossi, todos ali são honorários “free-lancers do Apocalipse”. O Conic, nem de longe, é um tema fechado. Mas nem por isso livra Subterrâneos de uma certa superficialidade: por mais que falem por si só as imagens e a amargura dos personagens, aprofundamento não é a praia deste filme. Merecia enxugamento, apesar das interpretações primorosas.