Ídolo de uma geração, símbolo de rebeldia e eterno galã, Marlon Brando foi um dos últimos monstros sagrados da sétima arte. Reconhecido por ser metódico, Brando reescreveu as regras de atuação e, com sua impactante sensualidade, redefiniu a forma do astro de cinema masculino. Um de seus papéis mais memoráveis foi o do mafioso Don Vito Corleone, em O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola, que lhe rendeu o segundo Oscar.
Nos últimos anos, Brando continuou a ocupar as manchetes da imprensa mundial, não por seu talento, mas sim pelas tragédias familiares pelas quais passou. “Ele tinha o que se pode chamar de combinação perfeita”, afirmou certa vez o ator Rod Steiger, co-protagonista de Sindicato de Ladrões (1954), filme que lhe valeu o Oscar pela primeira vez. “Tinha um talento incrível, era um símbolo sexual e se negava a aceitar compromissos. Tornou-se a expressão de uma interpretação verdadeira e realista, que nunca teria existido sem ele”, disse Steiger.
Brando se transformou no principal expoente da nova geração de atores do pós-guerra, com os filmes Uma Rua Chamada Pecado, Viva Zapata!, Sindicato de Ladrões e O Selvagem.
Em 1947, Brando causou sensação na Broadway com o papel do brutal Stanley Kowalsky na adaptação da obra Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, que logo abriu as portas de Hollywood para ele. No Brasil, o filme ganhou o título de Uma Rua Chamada Pecado. Inicialmente, recusou as ofertas da meca do cinema, ao indicar, em 1948, que os produtores de Hollywood “nunca nunca fizeram um filme honesto em sua vida e, provavelmente, nunca o farão”.
Dois anos mais tarde, estreou com grande êxito de crítica no filme de Fred Zinnemann Espíritos Indômitos, onde interpretava um soldado paraplégico, antes de trabalhar sob a direção de Elia Kazan para a adaptação cinematográfica de Um Bonde Chamado Desejo. Além de render a ele, em 1952, a primeira das quatro indicações consecutivas ao Oscar de melhor ator, o longa-metragem deixou gravada a imagem de Brando com símbolo sexual, com sua camiseta branca suada. Depois encarnou o famoso revolucionário mexicano em Viva Zapata!, também de Kazan, e Marco Antônio em Júlio César, de Joseph Mankievicz, antes de se converter no símbolo da rebeldia ao interpretar o líder de um bando de motoqueiros no filme de Laslo Benedek, O Selvagem (1954).
“Nenhum de nós envolvidos no filme nunca imaginou que instigaria ou incitaria uma rebelião juvenil”, escreveu Marlon Brando em sua biografia autorizada As Canções que Minha Mãe me Ensinou, publicada em 1994. Brando chegou a fazer ainda alguns filmes que destoavam de seu currículo, como Casa de Chá do Luar de Agosto (1956), onde curiosamente vivia um asiático, e o musical Eles e Elas (1955), onde cantou ao lado de Frank Sinatra.
Seu poder de atrair público caiu nos anos 60 devido à sua participação em filmes considerados medíocres. Embora tenha merecido o Oscar de O Poderoso Chefão, Brando não compareceu à cerimônia de entrega e enviou no seu lugar a suposta índia Sacheem Littlefeather, na verdade uma atriz hispânica, para manifestar ao público o descontentamento com a forma como Hollywood tratava os nativos americanos.
A polêmica cercou sua vida após a estréia do drama erótico O Último Tango em Paris (1973), de Bernardo Bertolucci, no qual interpretou um homem de meia-idade, desorientado após o suicídio da esposa. As cenas de sexo com a atriz francesa Maria Schneider escandalizaram o público. Reconciliado com a fama, Brando – que dizia atuar para “sobreviver” – fez o filme mais comercial de sua carreira, Superman – O Filme (1978), de Richard Donner, no qual interpretou Jor-El, o pai do super-herói, antes de encarnar o desesperado coronel Kurtz em Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola. Seu último filme, A Cartada Final, estreou em 2001.