Apesar de os índios Guarani consumirem muito sal e pouco potássio e de apresentarem altos índices de obesidade e elevado grau de tabagismo – fatores que interferem na elevação da pressão arterial – são poucos os casos de pressão alta entre aquela população no Estado do Espírito Santo. Essa é a conclusão de um estudo realizado pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e o Instituto do Coração de São Paulo (Incor).
Para chegar aos números que mostram como anda o coração da população indígena capixaba, pesquisadores e profissionais de saúde estudaram os principais fatores de risco cardiovascular, como por exemplo, hábitos alimentares e o comportamento social dos índios aldeados de Aracruz (ES). A pesquisa, denominada Monitoramento Cardiovascular (Monica), foi realizada entre fevereiro e dezembro do ano passado.
Entre uma população de 2.319 índios das etnias Guarani e Tupiniquim, os pesquisadores elegeram os maiores de 20 anos para a realização do estudo, ou seja, 834 pessoas. Destes, 664, cerca de 80% da população elegível, compareceram para fazer os exames, sendo 312 homens e 352 mulheres.
Enquanto nas comunidades Tupiniquim a prevalência de hipertensão arterial atingiu 20,4% da população estudada, entre os Guarani ela é de apenas 3%. O número de hipertensos na população brasileira geral adulta situa-se na casa de 15% , variando conforme a localidade, entre 9% a 30%.
O estudo também mostra que em relação aos números globais de hipertensão, ou seja entre aqueles indivíduos que foram examinados e acompanhados pelos pesquisadores, 19,6% das mulheres são hipertensas contra 17,9% dos homens. Nas populações urbanas não indígenas, a prevalência da hipertensão é maior entre os homens.
A pesquisa revela que 14,7% da população estudada sofrem de obesidade. Esse é um índice considerado elevado, levando-se em conta a média de idade do grupo estudado, 36 e 37 anos. No projeto Monica, realizado na população urbana de Vitória, cuja a média de idade foi de 45 anos, a prevalência global de obesidade foi de 18,8%.
Os pesquisadores perceberam ainda que alguns fatores ligados ao estilo de vida, como alimentação, obesidade, tabagismo e alcoolismo, normalmente determinantes na elevação da pressão e o aparecimento de hipertensão, não são relevantes na população Guarani. “Aparentemente, eles têm baixa predisposição genética para desenvolver hipertensão. Isto não acontece com os Tupiniquins, que vivem em ambiente similar”, afirma o médico e professor da Ufes, Geraldo Mill, coordenador do trabalho.
Os números registrados pela equipe de saúde indígena da coordenação regional da Funasa no Espírito Santo também comprovam a boa saúde cardíaca da população indígena do Estado. Das quatro mortes registradas no primeiro semestre de 2004, apenas uma foi causada por doença do aparelho circulatório.