A idéia do filme é antiga. Seu primeiro esboço surgiu em 1987, quando o diretor Carlos Reichenbach participava do Festival de Cinema de Roterdã (ele foi apresentar Anjos do Arrabalde). “O coordenador do festival me sugeriu apresentar um projeto em público, num encontro de diretores e produtores independentes”, lembra Reichenbach. “Aí, escrevi dois roteiros que seriam filmados simultaneamente”, conta.
Esses dois roteiros eram Sonhos de Vida e Vida de Sonhos, o embrião do longa que ele apresenta hoje à noite no 36º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Garotas do ABC (Aurélia Schwarzenega).
A temática é simples: o dia-a-dia de operárias brasileiras. Mas, a abordagem é múltipla: racismo, preconceito, violência, solidão, política, fascismo, entre outros. “Todos os temas serão tratados de forma dura, radical. Não usamos luva de pelica”, avisa Reichenbach.
Por isso, o filme tem muitas cenas fortes. De violência e de ação. “Sempre tive vontade de me aprofundar no mundo da mulher operária, nesse ambiente hostil e violento. As filmagens não podiam poupar o público dessa realidade”, afirma o diretor.
Daquele dia em 1987 até a conclusão do longa, passaram-se muitos anos e alguns momentos de desistência. Reichenbach cansou do cinema, teve uma experiência empresarial frustrante, voltou a estudar música até que um dia…
“Esse filme existe graças a um amigo que convenceu-me a fazer a inscrição no Bolsas Vitae. Ganhei a grana e passei um ano e meio imerso no trabalho de campo”, conta Reichenbach. No início ele trabalhou em parceria com duas pesquisadoras. Depois, resolveu virar um “espião” e viajar diariamente com as operárias no trajeto casa-trabalho-casa.
“Procurava as negras dentro do ônibus e me sentava ao lado delas. Foi uma experiência antropológica”, relata. O problema foi quando elas começaram a perceber aquela “pessoa estranha” ao meio. “Ainda bem que já tinha colhido muito material. Tive que deixá-las para que elas não descobrissem o que eu estava fazendo”, lembra. A maior parte dos textos lidos no decorrer do filme foram escritos com base nesse trabalho de campo.
Aurélia Schwarzenega é uma das operárias e o enredo gira em torno da vida dela. O papel coube à atriz Michelle Valle. Desconhecida à época das gravações, ela teve uma participação recente na novela Celebridade, como a modelo Tereza. “Escalar o elenco foi um trabalho à parte. Queria rostos desconhecidos. O sorriso da Michelle me conquistou”, confessa Reichenbach. Selton Mello é outro ator que faz parte do elenco. Ele interpreta um ideólogo fascista muito inteligente, chamado Salesiano de Carvalho.
Para o diretor, é um luxo estar disputando esse prêmio com tanta gente importante. “Tenho a sensação de que sou um aluno no fundo da sala, observando os da frente”, analisa. “O cinema e os cineastas têm a obrigação de ajudar a entender o nosso tempo. É essa tarefa que torna o nosso ofício importante”, conclui. E é isso que podemos esperar de Garotas do ABC (Aurélia Schwarzenega).