As mentiras e as verdades muitas vezes acabam se misturando. É o que propõe o diretor teatral Fernando Villar , com o espetáculo Ventiras y Merdades, de amanhã a domingo, na Sala Martins Penna do Teatro Nacional. A montagem, de um dos diretores de maior destaque no teatro brasiliense, utiliza a metalinguagem para discutir como as verdades e mentiras interferem no cotidiano das pessoas.
“Essa diferença deveria ser clara, mas é preciso ver até que ponto a mentira e a verdade se misturam”, define Fernando Villar. “No momento em que vivemos atualmente, é totalmente cabível essa discussão. Se o limite entre a verdade e a mentira é desrespeitado, é um problema da contemporaneidade”, acrescenta.
Ventiras y Merdades conta a história de uma produtora internacional que trouxe a Brasília atores cariocas e paulistas para montar Contemporaneidade Empacotada. É uma peça dentro de outra peça: “São atores interpretando atores que interpretam personagens”.
Durante a montagem do espetáculo, o grupo teatral debate temas da contemporaneidade, como Aids, homossexualidade, novas famílias, relação de casais, entre outros. “A peça é um quebra-cabeça, que as pessoas vão montando no decorrer da história”, diz.
O elenco é formado pelos atores Camila Meskell, Cláudia Andrade, Henrique Rovira, Leonardo Camárcio, Leonardo Hernandes, Mônica Berardinelli e Narciza Leão, todos com experiência internacional.
“Cheguei com a estrutura inicial do espetáculo, mas fui construindo o texto com cada um deles. É uma troca de idéias, um processo colaborativo”, lembra o diretor. Para o final, a platéia pode esperar algumas surpresas. “A mesma surpresa que o público vai ter, os atores tiveram, pois só entreguei o final há duas semanas, depois de quatro meses de ensaio”, conta.
“A peça discute questões que permeiam o dia-a-dia, procurando ver até que ponto nossas mentiras e verdades fazem nossas verdades e mentiras”, continua Fernando Villar. “Dessa forma, o título assume sutilezas e valores em relação à verdade e à mentira na arte e na vida”.
O espetáculo é multimídia, com projeção de vídeos, filmes conhecidos e fotografias. “Sempre busquei misturar as artes contemporâneas, porque teatro não é só a interpretação; tudo é importante, a luz, o figurino, o espaço”, diz. Luzes refletidas em espelhos multiplicam as projeções e as ações, sugerindo diversos olhares para a mesma cena.
atuaçãoVentiras y Merdades traz de volta um dos maiores destaques da jovem história do teatro brasiliense, Fernando Villar, no primeiro trabalho autoral desde a volta ao Brasil, em 2001 (ele morava em Londres, na época). Aos 46 anos, Villar traz uma história de sucesso no teatro.
O interesse pelas artes vem desde criança. Formou-se em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília (UnB) em 1983 e, durante o curso, dedicou atenção especial às disciplinas de Artes Cênicas. Lia muito sobre o teatro, gostava de ficar imaginando as cenas. Naquele mesmo ano, o diretor carioca B. de Paiva veio para Brasília dirigir a peça O Exercício e queria um artista plástico para fazer a iluminação. Villar foi o escolhido. Com a montagem, viajou pelo Norte e Nordeste.
A partir daí, interessou-se mais pelo teatro. A primeira pessoa com quem Villar aprendeu interpretação foi Helena Barcellos – que dá nome ao teatro do Departamento de Artes Cênicas da UnB. A partir dessa experiência, ele começou a participar de montagens na universidade, tanto como figurinista quanto no papel de iluminador.
“Isso foi me permitindo conhecer o teatro, tudo que é preciso ser feito para a peça ficar pronta”, diz. Primeiro ganhou papéis pequenos e aos poucos foi se destacando. Era professor de inglês (Renato Russo, ex-líder da Legião Urbana e seu amigo particular, lecionava a mesma disciplina na escola). Em 1983 fez sua primeira peça, Você tem uma Caneta Azul Pra Prova?, no Teatro Garagem. “Na época faltava público para teatro em Brasília. Essa peça foi uma surpresa, um sucesso. Ficamos uns seis meses apresentando”, lembra Villar, que remontou o espetáculo no ano de 2003.
sucessoEm 1984, ele criou Vidas Erradas, que também teve boa aceitação e se transformou em outro grande sucesso do teatro da década de 80. A peça acabou dando nome ao grupo, que durou até 1989. “Tínhamos um público variado: punks, diplomatas, professores, alunos”, recorda.
Durante a década de 1990, Villar desenvolveu estudos acadêmicos e prática artística na Europa. Em 1992, participou da primeira montagem de uma peça de Nelson Rodrigues em inglês, O Beijo no Asfalto, em Londres. E voltou para Brasília, onde começou a dar aulas na UnB.
Entre 1996 e 2000, morou em Londres e em Barcelona, fazendo doutorado em Artes Cênicas. Teve uma montagem de grande sucesso na Noruega, A Chave do Inferno, caracterizada pela crítica daquele país como teatro diferente. “Adorei essa classificação, pois gosto de fazer coisas diferentes mesmo, fugir do teatro convencional”, afirma.
Ao voltar para o Brasil, em 2001, passou a dedicar-se aos alunos da universidade, fazendo montagens teatrais. “Todo ano faço uma peça. Mas este ano senti a necessidade de fazer algo mais profissional, com atores prontos. Então criei o Ventiras y Merdades. Mas tem alunos meus trabalhando na montagem também”, explica o diretor, que viaja pelo Brasil participando de oficinas de teatro, palestras, júri de festivais e bancas de mestrado. “Adoro viajar. Mas minha base é Brasília, gosto dessa fazenda urbana”, define Villar.
serviço
Ventiras y Merdades – Espetáculo de Fernando Villar. Amanhã e sábado, às 21h, e domingo, às 20h, na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Cláudio Santoro. Ingressos a R$ 20 (inteira).
“Sempre busquei misturar as artes contemporâneas, porque teatro
não é só a interpretação. Tudo é importante: a luz, o figurino, o espaço”Fernando Villar,diretor teatral, sobre a proposta de sua montagem em cartaz no Teatro Nacional