A crise de originalidade por que passam os roteiristas de Hollywood já andava evidente na proliferação de ficções “baseadas em fatos reais”. E torna-se ainda mais gritante quando ocorre a dupla produção de uma mesma história, mesmo sem se tratar de uma refilmagem. Alguns espectadores vão se confundir diante de Confidencial, que estréia hoje nos cinemas. Explica-se: o longa-metragem tem o mesmo recorte biográfico já mostrado em Capote, realizado um ano antes por Bennett Miller, e que rendeu Oscar de melhor ator a Philip Seymour Hoffman.
Ambos se detêm sobre a personalidade peculiar do escritor Truman Capote e acompanham seu processo de investigação do assassinato de três integrantes de uma família no interior do Kansas que está na origem do livro A Sangue Frio.
Os longas buscam transmitir ao público uma impressão de veracidade. Seja por tomar por base dois trabalhos de biógrafos distintos – feitos com o habitual rigor dos norte-americanos na área –, seja pelo sofisticado trabalho de direção de arte, fiel na representação dos universos distintos pelos quais transitou Capote, do esnobismo nova-iorquino ao provincianismo da cidade interiorana do Kansas.
E ainda funcionam como veículo para atores exibirem excelentes performances na encarnação de um tipo conhecido por sua singularidade física e comportamental. Resta ao espectador fazer o exercício de comparação entre o famoso Capote e Confidencial, dirigido por Douglas McGrath, com o pouco conhecido Toby Jones no papel de protagonista.
Mas não se trata de meramente fazer um contraste entre as obras para extrair da disputa conclusões como “a mais fiel’, pois esse tipo de conclusão pressupõe que o valor de qualquer ficção resida em seu lastro de verdade, alimentada pela ênfase verista da estética hollywoodiana.
Trata-se antes de contrastar para se certificar o quanto a expectativa de veracidade se torna limitadora dos significados de uma obra de arte. Em Confidencial, é apresentada a lição de casa do verismo seguida à risca, digna de elogios, com um ator incorporando seu personagem no sentido espiritista do termo e o relato preciso do envolvimento emocional do escritor com Perry Smith, um dos assassinos.
Tais rigores de reconstituição, por sua vez, esvaziam o filme de ambigüidades e de riquezas simbólicas. E as transferem para Capote, onde se enxerga com evidência a indagação ética por trás do percurso do escritor e seus dilemas pessoais provocados pelo choque com a violência.