Os problemas de alguns adolescentes e os choques de classe em Guatemala e Peru são os temas centrais dos dois filmes apresentados nesta terça-feira (23) em Horizontes Latinos, dentro do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.
Trata-se de Dioses, do peruano Josué Méndez, e Gasolina, do guatemalteco Julio Hernández Cordón.
Embora totalmente diferentes, os dois filmes coincidem em seus protagonistas, que são adolescentes, e no ambiente marcado pelas fortes diferenças sociais e pelos choques de classe existentes na América Latina.
Dioses conta a história de uma família de classe alta formada por um pai, sua jovem namorada – que tenta ocultar sua origem humilde a todo preço – e os dois filhos adolescentes dele, perdidos em um contexto de bebidas e sexo e que tentam buscar seu lugar no mundo.
O longa é uma forte crítica à vida vazia que muitos membros desta classe levam diante da pobreza extrema na qual vive o povo que os rodeia, embora o filme introduza também outras questões como desejos incestuosos, gravidez e dificuldades de relações entre diferentes gerações.
Segundo seu diretor, “é uma prospecção da vida cotidiana dentro de um determinado grupo social, o da classe alta peruana. Um grupo que preferiu se isolar geográfica e intelectualmente dos profundos problemas sociais e econômicos que afetam o país”.
Para ele, é importante mostrar que “a miséria moral, e não só a miséria econômica”, está presente em sua sociedade, “e como esta não é característica exclusiva das classes mais humildes”, mas “o mesmo dilema que define a todos” e impede que a “sociedade evolua rumo a uma mais inclusiva, acolhedora e sincera”.
O filme, desenvolvido com a ajuda da Cinefondation do Festival de Cannes e que pretende mostrar as relações entre as diferentes classes, peca em não trazer à luz o outro lado da sociedade peruana, longe do mundo dos ricos.
Já Gasolina, primeiro trabalho de Hernández Cordón, traz uma visão totalmente diferente dos problemas sociais. O filme foi o ganhador do ano passado em San Sebastián do prêmio da seção Cinema em construção, na qual empresas audiovisuais selecionam filmes para ajudá-los a finalizar seu processo de produção.
É uma história que se desenvolve em uma só noite, em um bairro despovoado da Guatemala, de três meninos de classe média-alta que se dedicam a roubar gasolina para poder rodar com o carro.
Uma história em alguns momentos entediante e na qual pouco se entende da vida destes personagens, exceto que são adolescentes entediados e que não buscam nada na vida.
Com um final dramático que se torna presumível no desenrolar da história, o diretor quis fazer um “retrato muito sincero” de seu país, da realidade da Guatemala, da “atmosfera escura” e do silêncio e desolação de suas noites, segundo explicou à Agência Efe.
“Queria transmitir essa sensação de tédio”, disse Hernández Cordón, que acrescentou que não poderia fazer um filme sobre a Guatemala que não tratasse desta questão, embora esse assunto lhe traga tristeza.
Segundo ele, o filme é repleto de diálogos “que não dizem nada, não abordam grandes temas, mas que dizem muito” sobre a situação e o contexto do país.
São dois filmes que seguem com certo destaque até agora em Horizontes Latinos, centrados na realidade social latino-americana e nas desigualdades entre ricos e pobres.