Ao escolher um filme africano como vencedor, pela primeira vez, e dar destaque a produções enfocando nazistas, homens-bomba e pedofilia, a edição deste ano da Berlinale – o Festival de Cinema de Berlim – fortaleceu sua imagem: enfim, o mundo real está presente na tela.
Infelizmente, o evento anual não conseguiu atrair muitos membros da elite de Hollywood – o que, segundo os organizadores, reflete a velha intenção deles de oferecer apenas glamour ao público.
O exuberante U-Carmen e Khayelitsha, do diretor Mark Dornford-May, figurou numa pesquisa informal em sétimo ou oitavo lugar entre os 22 trabalhos inscritos, mas ganhou o Urso de Ouro de melhor filme. A história é uma ambientação da ópera Carmen, de Bizet, num decrépito subúrbio negro sul-africano, sendo o filme todo falado no idioma xhosa.
Em termos artísticos, muitos críticos acharam que o conceito não funcionou, mas a decisão do júri de Berlim parece ter sido pelo menos em parte política, um gesto em favor dos filmes e temas africanos que percorreram os dez dias do festival.
Outro destaque foi Sometimes in April, um retrato brutal do genocídio de Ruanda, em 1994. Sobre o mesmo tema, o Festival estreou o europeu Hotel Rwanda, que recebeu três indicações ao Oscar.
Outros temas sérios se saíram bem em Berlim. Sophie Scholl – The Final Days foi premiado nas categorias melhor diretor e melhor atriz. Foi mais um a abordar a espinhosa questão do nazismo e da 2ª Guerra Mundial.
Os diversos filmes sobre o nazismo e o Holocausto refletem a crescente disposição da Alemanha em enxergar os seres humanos que existiram por trás de personagens históricos muitas vezes retratados de maneira caricata.
Hany Abu-Assad procurou mostrar a pessoa real que existe por trás de um homem-bomba no aplaudido Paradise Now, mostrando dois amigos palestinos preparando-se para lançar um ataque suicida contra soldados israelenses.
Já o diretor russo Alexander Sokúrov também procurou romper com clichês com seu filme The Sun, que mostra o falecido imperador japonês Hirohito como alguém que enfrenta uma decisão de importância enorme, e não como um deus, como era visto por muitos japoneses. O festival, enfim, conscientiza.