AFat Family andava meio sumida nos últimos dois anos, após o lançamento do pouco badalado disco Pra Onde For, Me Leve. Saiu da megagravadora EMI Music e migrou para a pequena Sum Records, pela qual lança o seu quarto e novo álbum Fat Family. Com uma carreira consolidada por interpretar em português sucessos da música negra norte-americana, como o hit Jeito Sexy (Shy Guy, de Diane King), o octeto se presta agora a traduzir a MPB de Caetano Veloso e Djavan para o dialeto da soul music.
Entre canções brazucas – Lilás (Djavan), Amanhã (Guilherme Arantes), Amor de Índio (Beto Guedes) e Força Estranha (Caetano) –, a Fat Family interpreta alguns sucessos internacionais também fora da alçada da soul music, como Stand By Me (Ben King/Jerry Leiber/Mike Stoller), Perhaps Love (John Denver) e Luzes da Ribalta (Limelight, de Charles Chaplin), todas com direito a incansáveis “firulas” vocais.
O grupo dos irmãos paulistas Sidney, Celinha, Celinho, Deise, Kátia, Simone, Sueli e Suzete mostra, como de praxe, um fabuloso virtuosismo vocal. Realmente, os oito irmãos podem se dizer abençoados com o talento e técnica impecável de cantar. No entanto, a seleção do repertório fora extremamente infeliz. O “jeito sexy” e a ginga da Fat Family não combinaram com a MPB suave das canções de Djavan e Guilherme Arantes, nem com Perhaps Love e muito menos com Stand By Me, que soa de forma estranhíssima para quem já conhece a versão original.
Há de se considerar também que o conjunto não casou muito bem com a produção assinada pelo experiente Bozzo Barreti (ex-tecladista e letrista da banda Capital Incial). O acabamento instrumental de Perhaps Love, Amanhã e Stand By Me ficou nitidamente dissonante aos arranjos vocais.
Em raros momentos a Fat Family acerta a mão. O estilo canto-coral, dividido em vozes, é o que a família sabe fazer melhor. Em duas faixas o conjunto relembra hinos tradicionais da música gospel norte-americana. Afinadíssimos, entoam versão a capela do lamento Poor Pilgrim of Sorrow e Joyfull, Joyfull, hino que ganhou projeção no mercado fonográfico ao compor a trilha sonora do filme Mudança de Hábito. Além disso, a canção é um prato cheio para a mezzo soprano Deise (a cantora de timbre mais agudo do grupo) soltar sua voz potente e elogiadíssima pelo mestre das “firulas”, Ed Motta.
Cristãos fervorosos, os músicos inseriram ainda no repertório um samba-rock de louvor de Jorge Ben, Deus é o Amor, e o maior sucesso do compositor católico Cláudio Fontana, O Homem de Nazareth. Fora as canções gospel, executadas com excelência pelo Fat Family, a contralto Celinha faz um solo sem muitas voltas em Força Estranha, de Caetano, na qual a cantora solta seu lado Gal Costa numa versão voz e violão, acompanhada de um coral formado pelos outros sete irmãos.
Nas 12 faixas de Fat Family, o álbum, o grupo procura exercer uma democracia entre os irmãos. Pela primeira vez a Família concede a cada integrante um solo vocal. Celinho, o barítono, que nunca havia exercido um papel maior do que backing vocal no conjunto interpreta Amor de Índio, com uma certa ginga black, mas num arranjo bem careta. Enfim, o talento dos cantores “fofinhos” poderia ser muito melhor aproveitado.
Fat Family– Quarto álbum do grupo vocal (Sum Records/2004). Produzido por Bozzo Barreti. 12 faixas. Preço médio: R$ 23.