Uma coisa sobre A Feiticeira, comédia que chega ao circuito cinematográfico local hoje com a excelente Nicole Kidman à frente do elenco: parece, mas não é um remake do seriado de TV criado por Sol Saks, exibido originalmente de 1964 a 1972, com Elizabeth Montgomery no papel da querida bruxa Samantha Stephens. O filme, de Nora Ephron, toma o show da TV americana como ponto de partida para suscitar o romance entre um mortal e uma feiticeira – mesmo mote da série.
A trama é centrada no famoso ator de cinema Jack Wyatt (Ferrell), que, para superar o fracasso de sua produção anterior, aceita realizar uma refilmagem de A Feiticeira, na qual ele seria Darrin (o marido de Samantha). Faltaria, ainda, encontrar uma garota para o papel da loira encantada. Ao esbarrar com a feiticeira Isabel (Kidman) – cujo desejo é levar uma vida “mortal”, sem truques –, Jack encontra a candidata perfeita, ainda mais ao vê-la mexer o nariz de um lado para o outro, como Samantha fazia.
Aceito o desafio de se tornar atriz, Isabel começa a se apaixonar pelo egocêntrico Jack, ao passo em que ele tenta colocá-la como uma mera coadjuvante do programa, de modo que ele seja a estrela central. Então, ela lança feitiço, se arrepende, tira o feitiço, volta atrás e, enfim, dá luz a um conflito semelhante ao vivido por Samantha em seu casamento com Darrin na “ficção”.
Pelo currículo da diretora Nora Ephron, a trama não podia desembocar em outro lugar que não o dos clichês de suas comédias românticas rasas, com casais “feitos um para o outro”, mas que, por alguma bobagem, se odeiam ao mesmo tempo em que se amam. Tira-se por Harry e Sally, Sintonia de Amor e Mensagem Pra Você. O grande erro de Nora, que também assina o roteiro, foi recorrer à sua receita e desperdiçar uma brilhante atuação de Nicole Kidman (por que não, mesmo se tratando de uma comédia?) e uma hilária performance de Ferrell, a serviço de um fogo cruzado de clichês. Ao final, dados alguns descontos, o elenco compensa o enredo fragilizado.