A regularidade com a qual o tema ditadura militar aparece na história do cinema brasileiro não esvazia o conteúdo de Batismo de Sangue, filme de Helvécio Ratton (A Dança dos Bonecos, Uma Onda no Ar e Menino Maluquinho) que estréia hoje na tela do Cine Brasília na mostra competitiva de longa-metragem do 39º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
A produção, adaptada do livro homônimo de frei Betto, remonta aos anos de chumbo brasileiros (final dos anos 60), a partir da militância de cinco frades dominicanos que apóiam a luta armada contra a ditadura: frei Tito (personagem central da trama, interpretado por Caio Blat), frei Betto (Daniel Oliveira), frei Osvaldo (Ângelo Antônio), frei Fernando (Léo Quintão) e frei Ivo (Odilon Esteves).
O cineasta avisa que, apesar do momento histórico que situa a obra, seu objetivo não é de compor um filme político, ou ideológico. "É um filme humanista", avisa Ratton. "Não faz sentido, após 30 anos, procurar dar uma lição de moral àqueles acontecimentos. O que faço é extrair uma compreensão mais profunda sobre a vida e o ser humano", previne o diretor, duas vezes premiado no Festival de Brasília com o troféu especial do júri em 1986 (por A Dança dos Bonecos) e melhor filme em 1998 (por Amor & Cia).
Ex-militante clandestino, Helvécio se familiarizou com a história dos frades nos anos 70, durante seu exílio no Chile. Em 74, frei Tito comete suicídio para se libertar da tortura. Quando frei Betto lançou o livro, Ratton adquiriu os direitos para filmá-lo. "Com o fim da ditadura, vieram muitos filmes sobre o assunto e sempre achei que faltava contar o que aconteceu. Acho que acabamos entendendo melhor os períodos históricos a partir das abordagens individuais", justifica o diretor.
Um dos principais investimentos – não financeiros, mas de tempo e apuro – de Batismo de Sangue, se concentra na preparação do elenco para as cenas de tortura. "Trouxe um especialista mexicano para ensiná-los a sofrer e a bater. A abordagem é muito forte, porque é um assunto que não dá para ser tratado mais com metáfora, leveza ou distanciamento nesses dias de hoje."
No entanto, o diretor pretende com Batismo de Sangue, fugir ao estereótipo da polícia/torturadores "maus" e militantes "bons". "Parece que os torturadores faziam aquilo por serem maus. Dentro do filme a tortura é mostrada como realmente era, um instrumento de Estado para arrancar informações. Mas não faço julgamentos, conto a história de um homem torturado", esclarece.
Antes de inscrever o filme no Festival de Brasília, Helvécio teve oportunidade de fazer a estréia da película fora do País, mas optou por lançá-lo em solo nacional, mais ainda, brasiliense. "Tive o privilégio de poder escolher a platéia para a primeira exibição. Preferi mostrar em Brasília tanto pelo fator simbólico de ser a capital, como pelo público, que por tradição é participativo e contestador", acrescenta.
Curtas 35mm
A cultura brasileira é o tema central, hoje, na mostra competitiva de curtas-metragens. De um lado, Divino Maravilhoso, de Ricardo Calaça, mostra o rito de devoção ao Divino Espírito Santo. Do outro, Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomaz Farkas e Ricardo Dias, lembra o talento de uma das figuras mais importantes da música popular brasileira.