No documentário O Homem Urso, do alemão Werner Herzog, é difícil não cair na armadilha de julgar o filme pelo seu personagem. O centro do filme, que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, é o pseudo-ecologista Timothy Treadwell, que ao longo de treze anos foi abandonando cada vez mais a vida entre os seres humanos para conviver com os ursos pardos de um parque do Alasca. Por enquanto, a produção fica fora do circuito de Brasília.
Ator frustrado, Treadwell resolveu por contra própria e sem nenhum preparo acadêmico estudar e cuidar de ursos. Por treze anos, ele se instalou na península do Alasca durante o verão, às vezes acompanhado, e, nos últimos anos, com uma câmera na mão, com a qual registrou aquilo que chamava de pesquisa.
Os ursos pardos são considerados uns dos animais mais perigosos do mundo. E Treadwell acabou descobrindo isso do modo mais duro. Ele foi devorado por um de seus "amigos" em outubro de 2003. Essa foi a primeira agressão do tipo registrada no Parque Nacional e Reserva Katmai.
Experiente e esperto, Herzog (de Aguirre, A Cólera dos Deuses) sabia que tinha um personagem poderoso nas mãos. O filme é, em sua maior parte, composto de imagens feitas por Treadwell ao longo dos seus últimos cinco anos de vida.
O que se vê na tela é um ser humano perdendo cada vez mais o contato com a realidade. Se nos primeiros minutos, quando o destino trágico de Treadwell é revelado, a platéia sente pena dele, no final do documentário é possível que essa reação seja bem diferente. Por mais que ele se julgasse amigo dos ursos e achasse que estava ganhando a confiança dos animais, percebe-se que isso era fruto de sua imaginação e que, em vários momentos, ele esteve bem próximo do perigo.
Se a Disney tem alienado as platéias há anos com ursinhos fofinhos e dóceis, Herzog e Treadwell mostram que as leis da natureza são outras. O longa ganhou diversos prêmios de melhor documentário, como o da Associação de Críticos de Chicago, da Flórida, Nova York e Toronto.
O Homem Urso não consegue mostrar quem foi Timothy Treadwell – nem é esse o objetivo do filme. O que o diretor pretende é fazer uma investigação sobre o comportamento humano. O que torna o documentário ainda mais poderoso é que Herzog consegue mostrar o pesquisador em sua essência, sem estar atuando ou fingindo. E temos o registro de assustador, resultando num filme impressionante.